Anarres de Luto: em memória de Ursula Le Guin

Artur Flores – A escritora norte-americana Ursula Le Guin faleceu no passado dia 23 de Janeiro, com 88 anos. Versada em diferentes estilos literários, escreveu romances, poesia, ensaios e contos infantis, tornando-se popular pelas suas histórias de ficção científica. Considerada uma bestseller pela crítica internacional, sempre rejeitou esse termo, denunciando os interesses associados ao negócio dos livros. A escritora transpôs para os seus romances temas que se inspiram nas várias ciências humanas, pegando em referências da psicologia, da antropologia, e da filosofia. Em particular inspirou-se no taoísmo, no anarquismo e no feminismo, assumindo afinidade com as idéias e os escritos de Kropotkin, Lao-Tse, Tolstoi e Virginia Wolf.

O romance “Os Despojados – uma utopia ambígua”, publicado em 1974, é um desses exemplos. A narrativa acontece em dois planetas vizinhos, habitados por humanos. Anarres é um planeta árido, antiga lua de Urras, que se tornou independente, e para onde foram viver os revoltosos inspirados em Odo, uma mulher que influenciou a formação dessa colónia libertária. Urras é um planeta com vários estados, polarizados em dois regimes políticos: de um lado um governo capitalista e patriarcal, do outro um sistema ditatorial que governa em nome do proletariado, aludindo aos EUA e à Rússia durante a “guerra fria”. Através de Shevek, um cientista que vive em Anarres e visita Urras, a história desenrola-se fazendo emergir questões sobre liberdade, autoridade, hierarquia, propriedade, as idiossincrasias linguísticas e culturais, bem como a alienação inerente a qualquer sistema.

Publicado anteriormente, e também incluído no Ciclo Hainish, “A mão esquerda das trevas” é outro livro marcante do seu legado, expondo a influência que o sexo, o género e a religião têm na cultura e na sociedade. Genly, um habitante da terra é enviado pela federação interestelar a Gethen, uma planeta desconhecido que atravessa uma época glaciar. Os seus habitantes são hermafroditas, e vivem a maior parte do tempo num estado assexuado. Apenas durante o “kemmer” – última fase do ciclo reprodutivo – adquirem características psicológicas femininas ou masculinas. A escolha temporária do sexo é determinada pela troca de feromonas com o parceiro sexual, podendo cada indivíduo gerar filhos. Este foi considerado um do primeiros romances de ficção científica feminista.

A simpatia de Ursula Le Guin pelo anarquismo pacifista, coincide com as suas convicções taoistas, filosofias que ela considerava terem bastante em comum, e estarem em consonância. Curiosamente existe uma versão do Tao Te King, traduzida pela escritora, com várias notas sobre a interpretação deste texto antigo, que ela estudou durante décadas, e lhe serviu de inspiração a vida toda. Em 2015 escreveu o prefácio do livro “The Next Revolution” que compila vários ensaios de Murray Bookchin.

Parte da obra de Ursula Le Guin está traduzida em língua portuguesa.

Artur Flores

Foto: theNerdPatrol | Fonte: Jornal Mapa

Comentar

O seu endereço de email não será publicado.