Faleceu Adam Parfrey, o editor das minorias políticas

Flávio Gonçalves – A notícia chegou-nos como um choque, inicialmente julgamos tratar-se de uma brincadeira de mau gosto ou de algum erro mas não, confirma-se: o polémico editor libertário Adam Parfrey faleceu no passado dia 10 de Maio de acordo com anúncio oficial da sua editora mais reconhecida, Feral House.

A popularidade das suas edições espalhou-se e sagrou-se ao longo dos anos por todo o globo e os títulos da Feral House foram e serão sempre alvo de curiosidade por parte dos leitores mais ávidos pela literatura mais pesada e transgressora, cunhada por uma amplitude de autores aos quais Parfrey deu a palavra, defensor que era da liberdade de expressão e da liberdade absoluta, não fosse ele um libertário de gema.

Naturalmente que no mundo lusófono contava também com o seu séquito de seguidores, caso de Júlio Mendes Rodrigo, autor e radialista português actualmente a residir na Indonésia, que no seu blogue pessoal desabafava o seguinte: “morreu um dos nossos melhores editores. Adam Parfrey deixou-nos no passado dia 10 deste mês. A notícia, que poderá passar despercebida ao vulgo, infelizmente, não deixa indiferente ninguém que se movimente nas fronteiras daquilo que já foi definido como ‘forbidden scholarship’ (…) Com a sua morte, aos 61 anos de idade, o mundo fica ainda mais cinzento do que já é habitual.”

Parfrey nunca se furtou a dar voz às culturas, ideologias e personalidades mais extremas, era literalmente o editor das minorias políticas e culturais do Ocidente editando autores e ideias com as quais inclusivamente discordava tornando-se conhecido pelo volume “Apocalypse Culture” que coligia as opiniões de toda uma miríade de radicais do submundo ocidental, de fascistas a satânicos, passando por necrófilos e anarquistas primitivistas. A obra é actualmente objecto de culto e já foi alvo de diversas reedições, destacava-se por permitir ouvir em primeira mão o que defendiam os radicais de todo o tipo, modelo que seria posteriormente adoptado pelas revistas “Answer Me!” e “VICE“.

Estreando-se editorialmente na editora independente Amok Press em 1988, fundou a sua própria editora um ano mais tarde: em 1989 nascia a tão polémica quanto popular Feral House que já deu a conhecer que “o Adam estava a trabalhar numa miríade de projectos quando faleceu. Iremos prosseguir com os mesmos até à sua impressão ao longo dos próximos 12 a 18 meses”, havendo portanto uma garantia da continuidade da Feral House para lá da partida inesperada do seu fundador.

Imparável e incansável, em 2005 fundaria a chancela Process Media em parceria com Jodi Wille da Dilettante Press, projecto que sintetizaria as sensibilidades das editoras dos seus fundadores, Adam e Jodi, produzindo volumes um pouco mais abrangentes como a sua colecção de auto-ajuda e sobrevivencialismo, mantendo a beleza e a estética características da Feral House que por norma consegue dar à luz livros em formatos com grande cuidado e bom gosto.

Vários dos volumes publicados por Parfrey na Feral House chegaram ao pequeno e ao grande ecrã, dando origem a séries de televisão, documentários e inclusivamente à longa metragem “Ed Wood” de Tim Burton (com Johnny Depp no papel principal). Os submundos da música mais pesada foram sempre um atractivo para a Feral House, não descurando as cenas hardcore, black metal ou hard rock e cativando estrelas como Danko Jones, Marilyn Manson (que prefaciou uma obra de Anton LaVey) ou Harley Flanagan para as suas páginas.

Adam Parfrey marcou a vida de muitos leitores e editores independentes ao demonstrar que é possível ser-se viável, livre e discordar sem censurar mantendo-se fiel à liberdade de pensamento, ao pluralismo das opiniões e à liberdade de expressão. O mundo das Letras, e não só, ficou mais pobre!

Flávio Gonçalves

Fonte: Pravda.ru | Foto: © Feral House, reproduzida sob expressa autorização.

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