De Pyongyand a Grândola: entrevista com Garotos Podres

Flávio Gonçalves – Os Garotos Podres são já uma lenda e uma referência incontornável nos submundos da música alternativa tanto em Portugal como no Brasil, formados em 1982 e lançando o seu primeiro disco em 1985, têm sido um foco constante de agitação, insurreição social e composição de temas que se tornaram em verdadeiros hinos em ambos os lados do Atlântico.

Após um diferendo que levou a que os membros da banda se separassem e ambos tentassem assumir o nome de Garotos Podres, tudo acabou bem e Mao, o último membro restante da formação original, voltou a poder apresentar-se livremente em público com a banda da qual sempre fora a alma, além de letrista e compositor.

Caro Mao, antes de mais o nosso muito obrigado pela sua pronta resposta em aceitar o nosso pedido e permita-nos dar-lhe os parabéns pelo “regresso”, digamos assim, dos Garotos Podres. Pelo que compreendemos das afirmações de ambos os lados, as diferenças políticas dos vários integrantes agravaram-se com o passar dos anos tornando-se irreconciliáveis?

Mao – Em 2012 os Garotos Podres racharam. Eu e o guitarrista fomos para um lado, e os demais para o outro. A partir de então a outra metade da banda tentou apoderar-se do nome Garotos Podres e assumiu posições políticas de extrema-direita. Em 2016 o Sr. Michel Stamatopoulos (ex-baixista) foi candidato à Câmara Municipal de S. Caetano do Sul pelo PEN, partido ligado a Jair Bolsonaro, principal líder da extrema-direita no Brasil.

Uma dúvida que tenho tido é se não faria sentido relançar o disco “Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo”, que saiu enquanto aguardava a decisão do tribunal como disco dos O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, agora como disco oficial dos Garotos Podres? Talvez num disco gravado ao vivo?

Mao – Por ocasião do “racha” (2012) eu e o Cacá Saffiotti (guitarrista) pretendíamos continuar a banda, obviamente utilizando o nome Garotos Podres. Isto nos parecia algo óbvio e legítimo, afinal eu era o último remanescente da formação original, além de ser o autor e compositor da maioria das letras e músicas. Passamos o final de 2012 e início de 2013 compondo novas músicas para um novo álbum.

Entretanto, ainda no início de 2013 fomos surpreendidos por uma péssima notícia. A outra metade da banda (os senhores Michel Stamatopoulos e o ex-baterista) haviam montado uma nova banda e, associados ao nosso antigo empresário, estavam tentando se apoderar do nome Garotos Podres. Como estratégia, anunciaram que eu havia “deixado a banda” por motivos de saúde. Nunca gostei das redes sociais, mas na época fui obrigado a abrir um perfil no Facebook para denunciar o “Golpe de Estado” (rs) em marcha.

Diante daquela emergência, corríamos o risco de termos “duas bandas” com o mesmo nome. Assim achamos adequado utilizarmos um nome temporário: nascia assim O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, o codinome-secreto dos Garotos Podres actuando na clandestinidade. Em 2014 lançamos secretamente o nosso álbum ” Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo”.

Ainda em 2014 o Sr. Michel Stamatopoulos e associados brigaram entre si e encerraram as suas actividades musicais. Em 2017 anunciaram oficialmente o final do do grupo. Em função desta realidade, nós do O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos resolvemos revelar para o mundo a nossa verdadeira identidade secreta.

Para a mais completa surpresa dos serviços ocidentais de inteligência, revelamos ao mundo que nós – pacatos, inofensivos e inocentes espiões nucleares norte-coreanos –  éramos na verdade, os temíveis Garotos Podres!

Em 2018 lançamos um compacto digital com as músicas “Grândola, Vila Morena” e “Aos Fuzilados da CSN”, juntamente com dois vídeo-clipes. Creio que este trabalho marca a volta dos Garotos Podres e reafirma o compromisso da banda com a luta pela emancipação social de todos os trabalhadores.

Em relação a novos trabalhos, creio que ainda não temos nada definido. Provavelmente devemos lançar vários “singles” como forma de rápida intervenção musical no difícil contexto político-social em que vivemos.

Tem sido chocante testemunhar o que tem acontecido no Brasil, a prisão do ex-presidente Lula da Silva em Portugal foi até denunciada pela União Geral de Trabalhadores (UGT), sindicato moderado ligado ao centro-direita e ao centro-esquerda, de tão inédita e injusta que foi! Acha que o povo está ciente de tudo o que se está a passar? 

Mao – Infelizmente a Democracia no Brasil é apenas o intervalo entre uma e outra Ditadura. A sociedade brasileira é extremamente autoritária mesmo nos períodos aparentemente democráticos.

O Golpe de Estado contra a Presidenta Dilma em 2016 marca o início de um novo período ditatorial no Brasil. Por trás desse Golpe estão fundamentalmente os interesses dos EUA em relação às reservas brasileiras de petróleo do pré-sal, além de representar um duro golpe contra os BRICS. A burguesia brasileira é a sócia menor deste Golpe: ela se contenta em ampliar suas possibilidades de lucro através da eliminação dos direitos trabalhistas.

Resumidamente: primeiro tiraram a Presidenta Dilma, depois tiraram os direitos trabalhistas e sociais, além de entregar o petróleo do pré-sal para as empresas estrangeiras. Dentro deste tabuleiro político os Militares são os principais fiadores do Golpe. É importante salientar que há muito tempo que o Brasil não conta com Forças Armadas nacionais. Desde o Golpe Militar de 1964 as Forças Armadas brasileiras foram transformadas em mera “tropa neo-colonial de ocupação” ao serviço de uma potência imperialista hostil (os EUA).

É neste contexto que se insere a prisão do Presidente Lula. Ele representa a Resistência do Povo brasileiro contra a Ditadura. Se houver eleições livres no Brasil, certamente Lula será eleito. É por este motivo que o prenderam, sem qualquer prova e num processo marcado pela Fraude Processual. Atualmente (maio/2018) Lula lidera as pesquisas eleitorais mesmo estando encarcerado em confinamento solitário nas masmorras de Curitiba.

Alguém se recorda ainda que a Dilma nunca foi acusada de corrupção? Lendo a imprensa generalista de ambos os lados do Atlântico nem conseguimos adivinhar que os golpistas que derrubaram a Dilma é que estavam, e estão, sendo investigados por corrupção!

Mao – O Pretexto para o Golpe de Estado contra a Presidenta Dilma foram a utilização pelo seu governo das “complementações orçamentárias” (as tais “pedaladas fiscais”). Não se trata de um procedimento regular, mas tampouco consiste em crime ou corrupção. Entretanto o político que iniciou o movimento para derrubar a Presidenta foi um político que construiu um aeroporto com dinheiro público na propriedade de um parente, e de onde foi apreendida uma aeronave carregada de pasta base de cocaína (o caso do helicoca).

Em outras palavras, a operacionalização do Golpe envolveu uma intrincada rede de conspiradores que envolviam não apenas os mais corruptos políticos do Brasil, mas também o crime organizado, além de sectores claramente fascistas infiltrados no aparelho de Estado (Magistratura, Ministério Público, Polícia Federal, Forças Armadas, etc). Provavelmente também houve suporte por parte dos serviços de inteligência dos EUA, que há tempos interceptavam as comunicações de diversos Governos (lembram-se do caso que envolveu a espionagem dos EUA em relação a Angela Merkel?).

Em suma: em nome do “Combate à Corrupção”, os maiores corruptos do Brasil tomaram o poder através de um Golpe de Estado contra uma Presidenta honesta e democraticamente eleita.

Tomamos a liberdade de assistir o seu “Goulash Vegano com Mao” no “Panelaço” do João Gordo em Março de 2016, mantém a opinião que o anonimato e a segurança das redes sociais nos revelaram que ainda há muito ódio e racismo no mundo?

Mao – Até 2013 eu estava fora das redes sociais. A partir de então fui obrigado a “mergulhar de cabeça” nelas para poder defender-me daqueles que queriam se apossar indevidamente do nome “Garotos Podres”.

Ao navegar por estas redes, confesso que fiquei chocado, pois até então não havia percebido o grau de intolerância, preconceito e barbárie que habita a alma de grande parte das pessoas. Creio que estamos vivendo uma “onda” de barbárie fascista que avança em boa parte do mundo.

Poderia citar como exemplo a questão do racismo no Brasil. Sempre achei que o racismo fosse algo residual em nossa sociedade, e algo típico de uma minoria muito ignorante. Entretanto ao frequentar as redes sociais, deparei-me com uma realidade aterradora. Pude constatar que esta “minoria” racista não era tão pequena assim. É preocupante o facto de um certo candidato de extrema-direita à Presidência da República tenha quase 20% das intenções de voto, mesmo sendo processado pelo crime de racismo.

Inicialmente entrei nas redes sociais para defender o nome Garotos Podres de pessoas que tencionavam vincular o nome da banda à forças políticas ligadas a este candidato de extrema-direita. Posteriormente para divulgar as actividades da banda (O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos e actualmente os Garotos Podres). Hoje, utilizo-me das redes sociais para muito mais do que apenas isso. Procuro dar a minha pequena contribuição na luta contra a Ditadura e a barbárie fascista, e na defesa da emancipação da classe trabalhadora.

Ainda pegando na pergunta anterior, acha que o politicamente correcto decretado por lei que nos deu uma falsa sensação de evolução das mentalidades e agora explodiu nas redes sociais explica a popularidade de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil?

Mao – Acredito que a eleição de Donald Trump e a candidatura de Bolsonaro são respectivamente o “ovo da serpente” que eclodiu e aquele que ameaça eclodir. Ambos são a representação da barbárie e do ódio instrumentalizado na política. As redes sociais apenas reverberam o discurso do fascismo que avança à passos largos. Isto pode não acabar bem. Basta nos lembrar o que ocorreu na Alemanha nazista, ou mesmo durante a Ditadura Militar no Brasil. Chegou o momento para que aqueles que defendem a humanidade se coloquem numa luta aberta contra o Fascismo.

Há alguma comparação possível entre Bolsonaro e Enéas Carneiro?

Mao – O que Enéas Carneiro e Bolsonaro teriam em comum? … talvez a única comparação possível resida no facto de ambos se posicionarem na Direita do espectro político da política brasileira. Mas as aproximações terminam por aí.

Enéas Carneiro, por mais caricato e grotesco que fosse, ele ainda demonstrava alguma capacidade intelectual. Além disso, tinha um discurso que – mesmo que direitista – contemplava a defesa da soberania nacional.

Bolsonaro, por outro lado, é uma nulidade intelectualmente falando. Além disso ele representa bem o sector “entreguista” das Forças Armadas brasileiras. É por isto que ele defendeu a entrega do petróleo brasileiro do pré-sal, defende a entrega da Amazónia para exploração por estrangeiros e nos EUA saudou calorosamente a bandeira estadunidense com uma estrepitosa e subserviente “continência”, enquanto prometia acabar com os direitos dos trabalhadores aos empresários daquele país.

Acho que é esta a principal diferença entre Enéas Carneiro e Bolsonaro. Enéas representava uma direita nacionalista. Bolsonaro representa uma direita anti-nacionalista com mentalidade neo-colonial. Sob este ponto de vista, Bolsonaro se assemelha muito a Philippe Pétain ou a Vidkun Quisling, respectivamente líderes fascistas da França e da Noruega que –  por motivos ideológicos –  colaboraram com o invasor nazista em seus países.

Mudando um pouco a geografia e olhando para a Venezuela hoje, exemplo muito popular entre a direita brasileira como Estado falhado: o relatório de Dezembro de 2017 da ONU afirma que entre 2015 e 2017 a Venezuela recebeu mais imigrantes brasileiros do que o Brasil recebeu imigrantes venezuelanos, contudo lendo a imprensa seria de pensar que no Brasil se vive muito melhor que na Venezuela! Esta narrativa ainda pega?

Mao – Esta pergunta é interessantíssima. Ela demonstra o quanto a classe dominante brasileira está ideológica e politicamente ligada ao Imperialismo de maneira servil.

Durante as últimas décadas testemunhamos o avanço de governos populares na América Latina. Foi assim na Venezuela, Brasil, Bolívia, Argentina, Equador, Paraguai, etc. Parecia que os EUA estava perdendo o controle de seu “quintal”. Entretanto, desde o início,  as conspirações patrocinadas pelos EUA se fizeram presentes com o intuito de frear esta onda de avanços democráticos, através de tentativas de Golpe na Venezuela, e de golpes consumados como no Paraguai, Honduras e Brasil.

De certa forma a grande imprensa brasileira é porta-voz da classe dominante, que por sua vez é dócil aos anseios do imperialismo. Durante anos os meios de comunicação brasileiros reverberaram o discurso beligerante dos EUA contra a Venezuela. Entretanto, actualmente a situação do povo brasileiro piorou tanto depois do Golpe de 2016, que todo este discurso propagandístico contra a Venezuela não tem surtido mais efeito entre os brasileiros.

No Brasil existem várias associações de amizade e solidariedade para com a Coreia do Norte, que possui inclusivamente uma embaixada no país. Há alguma explicação para este fenómeno? 

Mao – A República Popular Democrática da Coreia é um país que tecnicamente ainda está em guerra com os EUA. Ainda não foi assinado um armistício entre estes dois países, pois o que existe é apenas a “trégua” de uma guerra que se iniciou em 1950.

Durante todos estes anos, a Coreia sofreu todo o tipo de agressão por parte do Imperialismo. Talvez a agressão mais permanente e contínua seja a manutenção de uma tropa de ocupação com dezenas de milhares de soldados estadunidenses na “Coreia Ocupada” (Sul da Coreia).

Ainda que sejam organizações pequenas e circunscritas a alguns círculos da esquerda, estas Associações de Amizade e Solidariedade à República Popular Democrática da Coreia, representam a continuidade da política de solidariedade aos povos oprimidos, como defendeu Lenine em “Sobre o direito das nações à autodeterminação dos povos” [LENINE, Vladimir Ilich. Sobre o direito das nações à autodeterminação dos povos” In: LENINE, Vladimir Ilich. Obras Escolhidas. 3 ed. Vol I. São Paulo: Alfa-Ômega, 1986].

De uma maneira geral, o facto dos trabalhadores brasileiros serem vítimas da opressão do Imperialismo, faz com que a esquerda brasileira seja solidária aos demais povos oprimidos de todo o mundo.

Na era do pós-verdade de Donald Trump, concorda com a afirmação de que a maior parte do que lemos ou ouvimos hoje na comunicação social é mera especulação e propaganda e raramente verdade?

Mao – Acho que sempre foi assim. Mesmo antes da “era” Trump. Não existe notícia ou órgão de imprensa neutro, e nunca houve. Precisamos saber “filtrar” as informações e entender quais são as intenções de quem emite uma notícia, considerando-o como mero “interlocutor”.

Há algum jornal, revista, canal de TV ou portal noticioso que consulte frequentemente?

Mao – Leio vários jornais, portais e revistas eletrónicas (inclusive o Pravda.ru). Em termos de TV assisto apenas a TVT (TV dos Trabalhadores), que é uma pequena emissora de TV administrada pelos Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e dos Bancários de São Paulo. Quebrei o controlo remoto da minha TV para que somente a TVT possa ser sintonizada em minha casa.

Se nenhuma informação é neutra, então que nos baseemos em notícias que partam do ponto de vista dos trabalhadores e de seus interesses.

Voltando um pouco no tempo, lembra-se das compilações “Vozes da Raiva”? Foi onde ouvi Garotos Podres pela primeira vez, como sucedeu essa colaboração com Mata-Ratos e Pé De Cabra na altura? 

Mao – Desde o nosso primeiro álbum (“Mais Podres do que Nunca” – 1985) sempre tivemos alguma penetração, principalmente entre os países de língua portuguesa ou castelhana. Acho que isto é decorrente do facto de “o forte de nossas músicas” ser justamente as “letras”.

Em 1995 um selo português – Fast n’Loud – distribuiu nossos CDs e nos incluiu em algumas colectâneas. Na época chegou até a tocar em alguma rádio de Lisboa.

Isto contribuiu para que pudéssemos ter o prazer de tocarmos junto com o Mata-Ratos em Portugal e na Alemanha.

No submundo punk brasileiro parece haver um revivalismo do streepunk/Oi!, muita banda estrangeira tocando no país, de Cock Sparrer a The Templars, muita banda nova surgindo, o regresso da Rotten Records… acho que os Garotos Podres nos últimos meses não ficaram um único mês sem dar um show, há mesmo um revivalismo ou é mero fogo de vista das redes sociais?

Mao – Creio que a melhor época para a cena punk/oi no Brasil foi entre os anos 2005 a 2012. Época que realmente rolou muito show por aqui. De 2013 em diante, a cena deu uma encolhida, em função da crise económica. Os golpistas sabotaram o Governo Dilma, ajudaram a amplificar uma crise da qual não conseguem mais sair. São mais de 14 milhões de desempregados no Brasil (em 2014 eram cerca de 4,3 %, o mais baixo índice de desemprego da História). Diante desta crise o pessoal está sem dinheiro para muitas coisas, inclusive para ir a shows.

Acho que a cena se mantém devido ao empenho e persistência das bandas e organizadores dos eventos. Mas creio que já vivemos momentos melhores.

Os Garotos Podres já tocaram em Portugal e restante Europa várias vezes, queres partilhar connosco uma boa recordação de uma dessas passagens? E uma má?

Mao – Tivemos a oportunidade de tocar em Portugal e alguns outros países da Europa em 1995 e 2004. Sinceramente não tenho más recordações das vezes que estivemos por aí. Somente tenho boas recordações, que são muitas.

Já que me pediu que lembrasse de alguma, vou descrever uma bem curtinha:

Tínhamos acabado de tocar em Lisboa. Era um lugar grande, do outro lado do Tejo. Me deram uns drinks docinhos a base de absinto. Nunca tinha tomado esta bebida.

Na hora de ir embora, eu vi trilhos de trem quase em frente ao local do show. Achei aqueles trilhos familiares. Pensei que estava em São Caetano, no ABC Paulista.

O pessoal ficou insistindo para que eu fosse embora com eles no carro. Mas eu achei que seria mais fácil ir para casa (na época morava em Mauá) seguindo a linha do trem. Só havia me esquecido que eu estava em Lisboa, e para que eu pudesse chegar em Mauá eu teria que atravessar o oceano… a nado… rs

Depois me convenceram a pegar uma barca e um taxi até Carnaxide, onde estávamos hospedados… rs

A principal atracção de Garotos Podres, para mim pelo menos, sempre foi o inconformismo e a crítica social presente em muitas das letras, passados todos estes anos há menos razões para se revoltar? Ou há mais ainda?

Mao – Os Garotos Podres surgiram em 1982, na época da Ditadura Militar (1964-85). Desde o início procuramos nos inserir na luta pela emancipação dos trabalhadores. É emblemático o facto de nossa primeira apresentação pública ter ocorrido num festival beneficente ao Fundo de Greve do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Tivemos, portanto, a oportunidade de vivenciar os momentos finais de uma longa luta contra a Ditadura.

Depois, de 1985 à 2016, vivemos sob um regime de “normalidade democrática”. Não eram tempos fáceis, entretanto. Foram tempos de tensões e lutas políticas acirradas. Agora, a partir do Golpe de Estado de 2016, mergulhamos novamente num período ditatorial que, aos poucos, acirra o seu carácter repressivo.

Neste contexto, nada mais temos a fazer do que nos aprestar à luta. Com a certeza da vitória. Por mais que hoje as constelações nos brilhem adversas!

Para quando um novo disco dos Garotos Podres? Já começou a escrever canções novas?

Mao – Creio que houve muitas modificações naquilo que chamamos de “mercado” fonográfico.

Há um tempo atrás acabaram-se as fitas K-7, depois os discos de vinil (que retornaram em parte), a pouco tempo atrás praticamente acabaram-se os CDs. Tudo indica que suporte mais comum para divulgar músicas será através das plataformas digitais.

Neste sentido, não sabemos se é compensatório ficar anos a fio para compor um álbum. Talvez seja mais interessante lançar vários “singles”.

É por este motivo que recentemente lançamos um versão de “Grandola, Vila Morena” no dia 25 de abril de 2018, e ” Aos Fuzilados da CSN” em 1 de Maio deste mesmo ano. Confesso que lançar “singles” é algo bem interessante. Pois é uma forma de você interagir rapidamente com o momento político em constante mutação.

Ao longo dos anos tem gravado versões punk de músicas clássicas da esquerda portuguesa, como por exemplo o lançamento digital da “Grândola, Vila Morena” no passado 25 de Abril. Como descobriu esses clássicos do Partido Comunista Português e da luta da esquerda portuguesa? Não consigo deixar de cantarolar a vossa versão do “Avante Camarada“…

O que fazem dois historiadores quando se encontram?

Falam de História, oras… rs

Na época que era estudante de pós-graduação, eu estudei basicamente a Revolução Cubana (no mestrado e doutorado). Entre os velhos amigos de turma estava o Lincoln Secco (actualmente Professor de História Contemporânea da USP). Fazíamos parte da mesma organização política, o Núcleo de Estudos d’O Capital.

Era muito comum o pessoal do Núcleo se encontrar na mesma pizzarria, principalmente depois das reuniões. Invariavelmente se discutia muito (de maneira informal) aquilo que se estava estudando. Era uma profícua troca de informações históricas.

Na época o Lincoln desenvolvia as suas pesquisas de doutoramento sobre a Revolução dos Cravos. E obviamente as conversas sobre este tema estavam sempre na mesa, assim como os papos sobre o processo Revolucionário Cubano.

Confesso que, depois de vários anos, aprendi bastante sobre a Revolução dos Cravos a partir de uma mesa de pizzaria.

Este meu interesse pelo tema, me levou a uma profunda admiração pelo processo revolucionário que pôs fim a uma sanguinária ditadura fascista. A Revolução dos Cravos toca em aspirações que considero perenes e universais, como a resistência contra a tirania, a democracia, o poder popular, etc.

As canções que marcaram a Revolução dos Cravos são os ventos de abril, que levam estas universais aspirações para outros povos, para além dos oceanos.

Por representar o desejo dos povos por justiça e liberdade, achamos tão importante contribuir para que os brasileiros conhecessem estas músicas. Acho emocionante quando, em nossos shows, o público brasileiro canta em coro – junto connosco – a “Avante Camarada”. Sensação de dever cumprido!

Uma curiosidade muito pessoal, chegou a ouvir o disco “Saúde e Trabalho”?

Mao – Ouvi … rs

Confesso que tentei ser imparcial, mas não gostei nem um pouco do álbum.

Na minha opinião, as letras não dizem nada de importante ou contestador. E as músicas não “soam” como… Garotos Podres… rs

Curiosamente acho que o único lugar onde este álbum teve alguma repercussão foi em Portugal (tanto é que você foi a única pessoa que me perguntou sobre ele … rs). No Brasil, este álbum foi quase ignorado.

O interessante é saber o “porquê”:

De uma maneira geral, nós brasileiros padecemos de um certo complexo de inferioridade típico de um povo colonizado (ou seria “neo-colonial”?). Muitas vezes para se fazer “sucesso”, é necessário ter o reconhecimento no “exterior”.

Desta forma, como os autores deste álbum não estavam conseguindo “legitimidade” perante o público brasileiro, eles foram buscar esta “legitimidade” em terras portuguesas, pensando que depois de excursionar pelo exterior conseguiriam o reconhecimento dos fãs brasileiros.

Para isto conseguiram que um músico de uma banda portuguesa (não vou citar o  nome) ajudasse na organização dos shows. Na época “protestei” diante deste “músico” (baixista). Aleguei que era um absurdo – logo ele – que se dizia “anti-fascista”, participar desta sórdida operação cujo objectivo era dar “legitimidade” a um grupo de pessoas que assumiram posições políticas de extrema-direita e intentavam apoderar-se do nome de uma importante banda de esquerda. Pelo visto a prática de “Golpes de Estado” no Brasil não se resume a Governos, mas a bandas também… kkkkkk

Infelizmente este “músico” português (baixista) não me deu ouvidos. Fez com que os fãs de Portugal viessem a comprar “gato por lebre” (como se diz no Brasil).

Apesar de tudo isso, a farsa não foi muito longe. Ignorados pelo público, o grupo se desfez em menos de dois meses depois de retornar ao Brasil.

Somente ficou a memória deste musico português “anti-fascista” que fez questão de organizar um tour com uma banda claramente de extrema-direita, justamente na época em que cresciam os movimentos fascistas no Brasil, e que tiveram como ápice o Golpe de Estado de 2016.

Em tempo: todos os músicos deste “grupo” que excursionou por Portugal, apoiaram o Golpe de Estado contra a Presidenta Dilma Rousseff.

Para finalizar, alguma mensagem de esperança que possa deixar aos nossos leitores? 

Mao – Vou deixar aqui uma mensagem de luta, pois somente a luta traz a esperança para os trabalhadores:

“Proletários de todo o mundo, uni-vos!”

(de Karl Marx e Friederich Engels no Manifesto do Partido Comunista)

Flávio Gonçalves

Fonte: Pravda.ru Foto: Pedro Taques

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