Ana Gomes: “proteger Assange é afirmar e proteger os valores e princípios europeus”

A eurodeputada socialista Ana Gomes, que tem estado bastante ativa na defesa de leis europeias que protejam delatores como Rui Pinto, interveio anteontem no Parlamento Europeu contra a eventual extradição de Julian Assange para os Estados Unidos da América, recordando o papel crucial que o Wikileaks tem vindo a desempenhar, afirmando que “como whistleblower merece proteção.”

“A extradição de Julian Assange para os Estados Unidos deve ser impedida. Só assim poderemos afirmar que a Europa protege quem defende transparência e verdade e quem quer exprimir-se em sociedades livres e plurais. Com uma administração como a de Trump, que faz dos media o alvo de estimação, Assange nunca teria julgamento imparcial”, defendeu a eurodeputada do PS, enfatizando que “um julgamento nos EUA seria instrumentalizável para a destruição da liberdade de expressão, como o dizem organizações como a Human Rights Watch e a ACLU. E Assange correria riscos de ser condenado à pena capital. É só ver o que pena hoje a fonte de Assange, Chelsea Manning, sob tortura em confinamento na prisão.”

Na sua intervenção recordou também que “Julian Assange deu decisivos contributos para a descoberta da verdade: revelou-nos atrocidades no Iraque e Afeganistão, hediondos crimes em Guantánamo e nas prisões secretas e a podridão, a hipocrisia e a criminalidade em sucessivas administrações americanas e até também em governos cúmplices, incluindo na Europa” e que “eu própria beneficiei das revelações do Wikileaks: um ministro [português] que me acusou de enganar quando entreguei à Comissão de Inquérito do PE as listas dos voos da tortura cometidos pela CIA e militares que foram autorizados por Portugal, com destino e origem em Guantánamo, acabou exposto como rematado mentiroso pelo Wikileaks.”

Ana Gomes defendeu que “se Julian Assange enfrenta as acusações de crime que lhe são feitas na Suécia deve responder por essas acusações na justiça sueca que oferece garantias de imparcialidade.” Considerou ser importante afirmar “que confiamos na independência dos tribunais do Reino Unido e na Suécia, mas ao mesmo tempo pedir-lhes que não cedam às pressões de extradição para os EUA.”

“É aos tribunais de Estados-membros da União Europeia que cabe a responsabilidade de julgar Assange e garantir-lhe justiça imparcial e, desde já, proteção como whistleblower na linha da diretiva que hoje acabamos também de aprovar”, referindo-se à aprovação no Parlamento Europeu de uma maior proteção para delatores como Rui Pinto e Edward Snowden.

“Proteger Assange é afirmar e proteger os valores e princípios europeus, as garantias dos direitos fundamentais acusados em justiça, é dar esperança a todos os que arriscam as vidas pela verdade, pela integridade e contra a criminalidade que tudo infiltra e até captura governos. Julian Assange merece essa proteção e merece beneficiar de todos esses direitos fundamentais na União Europeia.”

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Flávio Gonçalves

Foto: Romina Santarelli

© Libertaria.pt

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