Cultursintra leva “O Deus das Moscas” ao palco

Antes de ler O Deus das Moscas do nobelizado William Golding, tenho uma memória de infância que sempre me marcou: a RTP Açores (único canal existente nos Açores até à chegada do século XXI) emitiu numa das suas sessões da tarde a longa metragem O Senhor das Moscas, com guião e direcção de Peter Brook em 1963, um clássico a preto e branco.

O filme foi tão marcante ao ponto de não resistir e comprar já no final da minha adolescência remake de Harry Hook em DVD, que a meu ver ficou muito, mesmo muito, aquém das expectativas (por vezes mais valia que os originais voltassem a rodar pelas salas de cinema do que insistirem tanto em remakes).

Ligando na perfeição as minhas duas paixões, a semana passada quando regressava de um repasto no Mineiro de Sintra reparei nos cartazes à beira da estrada: a Cultursintra terá O Deus das Moscas em cena na Quinta da Ribafria até dia 31 de Agosto. Para quem não esteja familiarizado com os filmes nem com o livro, eis a sinopse:

Há um avião que se despenha numa ilha paradisíaca. Há um grupo de rapazes de colégios britânicos que sobrevive a esse acidente, quando fugia de uma (qualquer) guerra. Longe da supervisão dos adultos, começam por festejar, brincar, nadar nas águas cristalinas do ilhéu. O cenário do romance de William Golding fica esboçado logo no parágrafo inaugural do texto. É nesse ambiente exótico, luxuriante e tropical, conscientemente selvagem e sufocante, que o grupo procurará criar bases para a edificação de uma nova sociedade. Ralph será eleito o chefe, numa votação que o opõe a Jack, o líder do coro que se transformará num bando de caçadores, guerreiros, mais tarde, um exército. Começam por concordar em fazer uma fogueira no topo da montanha, com o objetivo de chamar a atenção de algum navio que possa passar perto da ilha. Mas, à medida que os dias vão passando, sem sinais do mundo exterior, sem salvamento à vista, percebe-se que Ralph e Jack têm prioridades diferentes. O primeiro preocupa-se em erguer abrigos e manter a fogueira acesa, com o auxílio dos óculos de Piggy, enquanto Jack insiste em percorrer a ilha à caça de porcos.

No espaço idílico de uma ilha deserta – que, à partida, estaria apto à construção de uma clássica utopia –, à medida que o frágil sentido de ordem começa a ruir, os jovens tornar-se-ão tribais e, depois de o corpo de um piloto cair de paraquedas na ilha, as suas inquietações ganharão contornos sinistros e bárbaros. O mundo paradisíaco das brincadeiras, dos livros de aventuras, acabará por dar lugar a um cenário assustador, a puerilidade dissolver-se-á na água do mar e os medos irão correr à solta, embrenhando-se na densa floresta tropical.

Publicado em 1954, “O Deus das Moscas” é um dos romances essenciais da literatura mundial e pode ser visto como uma alegoria, uma parábola, um tratado político ou até mesmo uma visão apocalíptica da fragilidade humana. Ao narrar a história deste grupo de rapazes (na versão original do texto) perdidos numa ilha deserta que, aos poucos, vai mergulhando em episódios cada vez mais violentos, o escritor britânico constrói uma história entusiasmante, ao mesmo tempo que desenha uma complexa reflexão sobre a natureza do mal e a ténue linha que poderá distinguir a civilização da barbárie.

Uma produção do Teatromosca a cujo trailer pode assistir aqui.

Em Portugal estão actualmente disponíveis três edições do clássico O Deus das Moscas, a mais recente é da Leya e conta com um prefácio de Pedro Mexia e capa dura. Pessoalmente, e como os olhos também comem, prefiro a edição de 2012 da Dom Quixote que, a meu ver, tem uma capa bastante mais apelativa, utilizada originalmente na edição de bolso da BIS do ano anterior (2011)

Ficha técnica:

O Deus das Moscas
Editor: Leya
Ano: 2017
Páginas: 300
Preço: 10€
Capa: Dura

O Deus das Moscas
Editor: Dom Quixote
Ano: 2012
Páginas: 264
Preço: 15,90€
Capa: Mole

O Deus das Moscas
Editor: BIS
Ano: 2011
Páginas: 256
Preço: 7,50€
Capa: Mole

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Flávio Gonçalves

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