Não, não vamos a tempo de salvar o planeta

As “verdes colinas da Terra”? Esqueçam. Salvar a Amazónia? Tenham dó. Nem que mil milhões de almas gritassem petições no Facebook uma semana a fio, NADA aconteceria.

Nada irá travar a deflorestação da Amazónia, o crescimento do consumo de combustíveis fósseis, o aumento da extração de petróleo, o aumento das viagens de avião, o aumento da temperatura, a subida do nível do mar, cada vez mais e maiores incêndios.

Palhinhas, gretas thunberg, apelos — fica-nos bem e acalma consciências sendo o efeito nulo. Chegámos à Idade da Hipocrisia: achamos que os problemas foram criados por alguém que não nós nem os nossos e exigimos as soluções sem abdicarmos dos níveis de consumo e conforto que estão, eles sim, apenas e só, na origem de todos esses problemas.

As instituições globais perderam peso. A opinião pública internacional é uma pobre caricatura da sua antepassada do século XX. Os governos dão roda livre a quem manda, e quem manda são as grandes empresas de meia dúzia de setores. Já nem sequer damos notícia dos atropelos à legislação existente – os poderosos riem dela, quando calha o assunto ser mencionado perto deles.

O futuro a, digamos, 50 anos? Fácil. A Terra vai ficar inóspita. Mas a Humanidade vai adaptar-se. Enquanto houver água e energia — e se a água é hiper-abundante a energia é colossal e infindável — a Humanidade vai adaptar-se. As condições de vida vão piorar bastante nesses 50 anos, talvez mais à frente possam melhorar.

Mais doenças de pele e olhos. Ainda maiores migrações, com centenas de milhões de desalojados pelas alterações climáticas E OUTRAS TANTAS centenas de milhões a mudarem-se por causa dos efeitos indiretos, nomeadamente nos processos de alimentação.

Mais pesticidas, culturas intensivas, alimentos sintéticos, piscicultura.

Menos água potável oriunda do ciclo “normal”, mais água potável extraída dos oceanos. É mais cara? Sim – a preços de energia de hoje. A energia pode baixar de preço, isto se o mercado funcionar, o que é não é provável.

O mercado, de resto, é outra relíquia da História: o capitalismo avançado eliminará esse expediente apenas necessário nas fases anteriores dos processos de acumulação.

E lixo, toneladas de lixo, vamos viver praticamente submersos em lixo, pelo menos a grande maioria da Humanidade. Lixo nos solos, nos mares, na alimentação de origem natural, no ar (aka poluição atmosférica).

Na agenda pública, nacional como europeia como global, quero ver medidas realistas para essas questões, não quero sequer o “ainda vamos a tempo” com que alguns partidos estão agora, que é demasiado tarde, a dourar a pílula aos potenciais eleitores.

Não, não vamos nada a tempo de “salvar” o planeta, as árvores, a Amazónia, o raio que vos parta. Vamos a tempo de dar abrigo aos milhões de deslocados, vamos a tempo de evitar ruptura na água, vamos a tempo de construir melhores casas que resistam a piores intempéries, vamos a tempo de políticas de energia que não deixem os cidadãos e as empresas completamente desprotegidas face aos chacais do setor, idem para a alimentação e a saúde.


Paulo Querido, ex-jornalista