“É altura das pessoas chegarem ao poder”

A reportagem que se segue descreve a experiência do jornalista Fraser Myers com os coletes amarelos em Paris, a data original da publicação data já de 12 de Dezembro de 2018 na revista digital Sp!ked, tendo ficado a sua tradução suspensa no limbo das dezenas de textos em lista de espera. Dada a sua relevância, optamos por o publicar agora. – NdE

Há quatro semanas seguidas, centenas de milhar de gilets jaunes (coletes amarelos) têm saído à rua em toda a França, organizando bloqueios, marchas lentas e manifestações.

Por lei os condutores franceses devem andar sempre com um colete amarelo, o qual se tornou agora num símbolo de resistência. Protestando em massa com um visual que nos capta o olhar, os sectores da sociedade que há muito se tornaram invisíveis são agora impossíveis de ignorar.

A semana passada, cerca de 125.000 manifestantes participaram em demonstrações espalhadas por todo o país. Juntei-me a cerca de 10.000 que vieram a Paris manifestar-se nos Campos Elísios.

Paris deparou-se com a revolta mais relevante da França desde 1968 – enormes secções da cidade foram colocadas sob bloqueio, com a polícia a ordenar que se encerrassem as estações de metro num raio de três quilómetros em redor dos Campos Elísios. As montras das lojas foram entaipadas e as principais atrações turísticas, como o Louvre e a Torre Eiffel, não abriram ao público. Com operações stop e bloqueios em todas as esquinas, guardados por polícias armados, Paris parecia uma zona de guerra. Foram levadas a cabo gigantescas operações de revista para evitar que os ditos casseurs (hooligans violentos) se juntassem aos protestos. Fui revistado seis vezes antes de conseguir aproximar-me dos Campos Elísios.

Quando cheguei, os gilets jaunes que conseguiram passar pela manápula de gendarmes estavam na sua maioria bem-dispostos, cantando em vários pontos “Demite-te Macron!” cantando La Marseillaise.

Os manifestantes vieram de muito longe. Encontrei pessoas dos subúrbios de Paris, de regiões nortenhas como a Bretanha e Picardy, e de regiões a Leste como Lorraine. Algumas vieram mesmo do Sul de França, de Bordeaux, Toulouse e Bouches-du-Rhône.

Christophe viajou 700km do Languedoc-Roussillon, a região mais a Sul de França, junto à fronteira de Espanha. Previamente já tinha protestado localmente, bloqueando rotundas, até lhe ter sido pedido que representasse a sua região na manifestação em Paris. “Em toda a França, estamos furiosos por o presidente não conseguir ver as dificuldades com que os franceses se deparam”, disse-me.

Charline, que veio de Aix-en-Provence no Sudeste, tinha-se manifestado todos os fins-de-semana desde 17 de Novembro. “Macron não dá ouvidos a ninguém de fora de Paris, por isso viemos ter com ele”, disse-me ela.

As manifestações surgiram primeiro em reação ao planeado aumento dos combustíveis. O preço do gasóleo já tinha aumentado 23 porcento num ano e uma escalada adicional do imposto foi vista como um insulto em cima do vexame. Saltava à vista que as pessoas que não viviam nas grandes cidades seriam as mais afetadas. Os gilets jaunes pareceram capturar a fúria daqueles que têm sido apodados em vários graus como a “França da periferia” ou “a França das rotundas” – pessoas que vivem nos arredores das cidades e que só podem depender dos seus automóveis. Durante 40 anos, os sucessivos governos favoreceram as cidades maiores, ignorando as áreas mais suburbanas e rurais.

Hervé, um trabalhador que precisa do seu carro para a sua deslocação de uma hora, afirma ter sido arduamente afetado pelo aumento do combustível. O imposto de Macron sobre os combustíveis foi deliberadamente pensado para desincentivar a condução – para encorajar as pessoas a utilizarem os transportes públicos ou a comprarem um carro híbrido para que a França possa atingir o seu objetivo de redução das emissões de carbono. Hervé considera-o exasperante: “com um ordenado como o meu, não conseguimos comprar um carro novo.”

Após três semanas de protestos dos coletes amarelos, o governo adiou o aumento do imposto. Mas foi demasiado pouco, demasiado tarde. A concessão do governo foi em grande parte ignorada e o IV Ato da rebelião dos coletes amarelos continuou. “Sei que já congelaram o imposto do combustível”, diz-me um trabalhador dos esgotos, que pediu para que não divulgássemos o seu nome, oriundo dos arredores de Bordeaux, “mas não me importo”. “Trata-se de não ter dinheiro até ao fim do mês”, diz. A maior parte dos gilets jaunes que encontrei refletia o mesmo sentimento.

Pamela, mãe solteira, revela que embora ganhe “um ordenado aceitável”, “mesmo assim não consegue chegar ao fim do mês”. “Todas estas despesas, impostos, taxas municipais, seguro do carro, imposto sobre o combustível, o preço da comida, não consigo pagar tudo. Limito-me a sobreviver. É o que estamos todos a dizer. Já não aguentamos mais.”

A sua amiga, Élodie, diz que testemunha uma pobreza extrema de onde veio, mesmo à saída de Paris. “Já vi pessoas a comerem do lixo, pessoas que trabalham, mas que não conseguem pagar um apartamento e têm que dormir nos seus carros. As pessoas estão cada vez mais pobres.”

Estava também preocupada com os custos de vida num modo mais amplo. “Uma baguete custa um euro”, diz Élodie, “acha isto normal?”. “Uns ovos custam três euros”, acrescenta a Pamela. “Depois temos o açúcar, o leite, a roupa das crianças. Não consigo comprar nada.”

Muitas das pessoas que encontrei recebem ordenados baixos. “Não se consegue viver com o ordenado mínimo”, diz Maxime, homem de mudanças na Bretanha. “Recebo 8,50€ por hora. O que se faz com isso?” Gwenn, também da Bretanha, trabalha três turnos por dia numa fábrica. “O dinheiro entra, mas com dificuldade”, diz ela. Quase toda a gente que encontrei pede ordenados mais altos e um aumento do ordenado mínimo.

Outra queixa comum são os impostos altos. “Temos demasiados impostos na França”, diz-me Gwenn. Para Pamela, não é só o facto de pagar demasiados impostos, mas também de “em retorno não receber qualquer ajuda do Estado – nada!”

“Pagamos imenso dinheiro em impostos, mas para onde vai?”, questiona Hervé. “Com certeza que não vai para os serviços públicos, que estão constantemente a piorar. Onde vivo, os correios fecharam, o hospital fechou… é terrível, principalmente para os idosos. Não podem deslocar-se à cidade grande mais próxima ou ir à Internet para tudo.”

Maxime suspeitava que o Estado estava “a encher os bolsos”. “Fui visitar Versalhes há pouco tempo. Luís XIV tinha o país todo a trabalhar só para ele. O que mudou desde então?”

Há duas semanas, Macron começou a renovar a sua residência oficial. Gastou 300.000€ do dinheiro dos contribuintes numa nova carpete. Vários gilets jaunes falaram disto. “Ele não vive no mundo real”, diz Christophe. “Faz isto precisamente na altura em que nos estamos a revoltar contra ele!” Charline afirma que “se estamos a fazer sacrifícios, então Macron e os seus ministros têm também que prestar atenção aos seus estilos de vida.”

Muitos dos manifestantes defendem o regresso do imposto de solidariedade sobre a riqueza – uma política do anterior governo socialista que Macron rapidamente erradicou quando tomou posse. Esta medida cimentou a sua imagem de “presidente dos ricos” – um sentimento expresso em muitos dos cartazes do protesto. “Ei Macron, olha para o teu Rolex! É hora da revolta!”, lia-se num.

Macron é visto por muitos coletes amarelos não só como desligado e indiferente – a substituir carpetes enquanto Paris arde – mas também como arrogante, desrespeitoso e rude. “Tem que se demitir”, diz Pamela. “Já provou várias vezes que não nos ouve. Somos só ‘gente simples’, as ‘pessoas que não são ninguém’ para ele.” (Aludia a um discurso dado por Macron a um grupo de startups tecnológicas, onde contrastava os empreendedores de sucesso com os que ficavam para trás, as “pessoas que não são ninguém”.) “Não tem qualquer respeito por nós”, diz Pamela. “Acha que somos uns idiotas”, foi o veredicto do trabalhador do saneamento de Bordeaux.

O governo francês demonstrou logo à partida o seu desprezo para com os coletes amarelos. Os ministros anunciaram à comunicação social que os manifestantes eram da extrema-direita. Esta calúnia foi aceite por políticos de todo o espectro político e por muita da comunicação social. Tratava-se dum movimento de “campónios de extrema-direita”, dizia um proeminente comentador.

Sem surpresa, muitos dos manifestantes ficaram ressentidos. Sentiram que o seu movimento tinha sido mal retratado pelo sistema. Tal levou muitos a tornarem-se hostis para com a comunicação social, principalmente com o canal noticioso BFM TV – porta-voz de Macron, nas palavras de uma manifestante. Quando alguém na multidão deteta câmeras da BFM a filmar o protesto de algum terraço, a multidão irrompe em cânticos de “BFM, vai-te foder!”.

A sugestão de que estes cidadãos franceses comuns são de algum modo de extrema-direita é um insulto e uma falsidade. A maior parte dos gilets jaunes com quem falei pediam apenas ordenados mais altos, uma maior distribuição da riqueza e o equilíbrio do poder político em favor das pessoas normais. Nenhum deles expressou quaisquer pontos de vista que possam ser considerados de extrema-direita.

É certo que foram atiradas ao ar outras ideias além desta na manifestação, mas rapidamente foram cordialmente elucidadas. Julie de Picardia tinha um cartaz a pedir impostos pan-europeus. Enquanto conversava comigo, um homem interrompeu-a para afirmar que a livre circulação do capital, permitido pela EU, era o verdadeiro problema. Uns quantos manifestantes tinham sinais a pedir um Frexit. “Não temos qualquer controlo sobre a nossa política económica dentre da UE. Os tratados europeus fazem com que não tenhamos uma democracia verdadeira”, disse-me Noé, um dos poucos manifestantes naturais de Paris. Outro erguia uma faixa a acusar Macron de ser um peão da UE e da sua “ditadura da austeridade”.

A classe política tentou também desacreditar os gilets jaunes ao culpar os algoritmos do Facebook e os russos de “amplificarem” a fúria do povo. Mas ficou extremamente claro ao falar com as pessoas que as suas frustrações com o status quo têm por base a sua experiência de vida, não lhes foram incutidas por agentes estrangeiros.

A enorme presença policial foi outro indício da atitude do governo quanto a descartar o movimento. Muitos dos manifestantes sentiam que foi uma reação exagerada e insultante para com uma série de protestos que, salvo uns poucos atos de vandalismo grave, tinham sido disruptoras, mas em grande parte pacíficas. Durante o fim-de-semana foram detidos mais de 1.700 gilets jaunes em todo o país, muitos de modo preventivo, tendo ficado 1.200 sob custódia.

“As pessoas como nós são 80 porcento da população. Não somos rufias violentos”, diz Pamela, furiosa por ter sido parada e revistada só por querer exercer o seu direito democrático ao protesto. “Olham para nós como algo inconveniente”, diz ela.

Alguns dos manifestantes estavam chateados com a polícia depois de um vídeo viral mostrar agentes a juntar crianças em idade escolar que se estavam a manifestar, forçando-as a ajoelhar-se com as mãos na cabeça. “Vocês batem em crianças”, gritavam uns quantos gilets jaunes enfurecidos contra a barreira de polícia antimotim. Do que testemunhei, a polícia foi agressiva e utilizou mão pesada. Carregaram frequentemente contra os manifestantes desarmados, causando o caos nas multidões. Também dispararam regularmente gás lacrimogénio – por vezes contra nítidos desordeiros, mas outras vezes disparavam bem para o meio da multidão. Também levei com o gás. Muitos gilets vieram preparados com máscaras de gás. Alguns manifestantes mais ousados pegaram nas latas de gás e atiraram-nas de volta para a polícia. Mas com o rácio de polícia para manifestantes em quase 1:1, a política esteve sempre em vantagem.

Outros viam a polícia como potenciais aliados. “Têm os mesmos problemas que nós”, dizia um manifestante, tentando persuadir um agente a juntar-se à causa. “Eles também não são bem pagos”, diz-me Élodie.

Para muitos, o protesto foi uma oportunidade para desafiarem não só a sua marginalização económica, mas também a sua marginalização política. “As pessoas têm que ser mais tidas em conta nas decisões importantes e na criação de leis”, diz Gwenn. “Há pelos menos 25 anos que os governos andam a ignorar a democracia e o povo”, diz Noé.

O movimento dos gilets jaunes está a dar às pessoas a esperança de que finalmente as vão ouvir. “Durante anos, muitas pessoas manifestaram-se e fizeram greve, mas foram sempre uns grupos de cada vez”, diz Hervé. “Mas com os gilets jaunes, juntamo-nos todos. O nosso movimento inclui todos os sectores e todas as regiões. Espero que agora nos prestem atenção.”

“O movimento chega a toda a gente”, diz Julian, um motorista de camião de Seine-Saint-Denis. Tinha o ambicioso objetivo de fundar a Sexta República Francesa, “a começar com uma base de maior igualdade”. Outros partilhavam o seu propósito revolucionário. “O povo deve tomar o poder”, diz Christophe. Muitos animavam-se com a emergência de protestos semelhantes Europa fora. “Estamos a combater pela nossa classe, por todos”, diz Élodie, “é assim que são as coisas à volta do mundo”.

Uma coisa é clara: o presidente Macron sabe que já não pode ignorar os gilets jaunes. Humilde e apologético, dirigiu-se esta semana à nação. Prometeu mais medidas para enfrentar “o estado de emergência económica e social” da França. Fez uma série de concessões, incluindo um aumento de 100€ no ordenado mínimo, uma redução de impostos estendida no tempo, e um corte nos impostos aos reformados. Mas tal não será suficiente para satisfazer algumas das ambições mais revolucionárias de alguns dos gilets jaunes.

Que a revolta continue.

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Fraser Myers faz parte da redacção da  Sp!ked e é anfitrião do seu podcast. Pode segui-lo no Twitter: @FraserMyers.

Foto: Fraser Myers.

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