Joker, o filme do ano

Por norma interpreto tudo de modo político, sempre me chocou que a maior parte das pessoas tenha a opinião de que a política não interessa para nada no dia a dia quando é a política que decide coisas tão essenciais à vida como a qualidade dos alimentos que ingerimos, da água que nos sai da torneira e do ar que respiramos. Mas neste caso irei cingir-me ao meu papel de fã e entusiasta do universo de Batman, quem queira uma interpretação politizada de Joker pode ir ler Tenham Pena do Assassino Psicopata de Eurico de Barros no Observador (para uma perspectiva de direita) ou O Fascismo Amigável de Aaron Freedman na Jacobin (para a perspectiva de alguma esquerda).

Pelo que li notei que a maior parte dos críticos conceituados odiou o filme, o que é sempre bom sinal. E o público de um modo geral? Adorou, até mesmo em Portugal! Fui logo à primeira sessão e, alguns dias depois, voltei para uma segunda sessão e de ambas as vezes saí da sala deliciado ao ponto de, no escritório, andar a escutar a banda sonora enquanto ando na labuta do dia a dia. É a segunda vez em 40 anos que volto a repetir um filme, o que não é coisa pouca.

Resenha cinematográfica não é a minha praia, mas há que realçar a fotografia de Joker, Gotham surge-nos como uma cidade orgânica, imunda, realista – ao contrário das interpretações góticas que vimos em vários filmes de Batman – e a personagem principal transgride logo com um gesto que há muito não via: o cigarro é omnipresente em todo o filme, algo inédito desde os meus tempos de adolescente com o afã proibitivo a que foi sujeita a indústria cinematográfica. 

Não querendo estragar o enredo do filme, o mesmo tem um easter egg para os espectadores que além de gostarem de cinema se dignam a ler as revistas do Batman, principalmente a saga Morte da Família que se espalhou originalmente por 23 números da Batman estadunidense e que em Portugal foi possível ler nas edições da Panini que nos chegam do Brasil. Partes da saga que nos confundiam, seja intencionalmente ou por mero acidente, ficaram esclarecidas em Joker.

Saí do cinema assoberbado com a magnitude do ambiente, a fotografia casa na perfeição com a banda sonora e com a interpretação louca de Joaquin Phoenix, actor que na verdade nunca me tinha cativado antes. Saí da sala com a certeza de que este será realmente o filme do ano, um clássico instantâneo, uma obra de arte pesada, violenta e tristemente realista quanto à dura realidade da austeridade e da vida em capitalismo liberal, todo um caldo que agrava a loucura e culmina no surgimento de um dos mais psicopatas, aviltantes e alucinados vilões do universo da DC Comics

E a parte melhor? Não se trata de um filme de super-heróis, o filme retrata a personalidade conturbada de um doente mental e a sua descida ao abismo da loucura total, numa sociedade que o pisa e ignora. Pode ser visto, apreciado e adorado por quem nunca tenha sequer pegado numa revista de banda desenhada. Para efeitos práticos, esta é a prequela dos Batman de Tim Burton (1989) a Christopher Nolan (2005), aqui o Joker é ainda um mero mortal.

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Flávio Gonçalves

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