A vistosa fluidez de género e o fortalecimento feminino como instrumentos do capitalismo

As mulheres devem ousar ter bigode? Os homens devem abandonar a sua masculinidade por esta ser “tóxica”? Não passará tudo de mero fogo de vista capitalista para ocultar as questões políticas verdadeiramente relevantes e se manterem no poder? Numa das mensagens anti-objectivação mais recentes, a marca de lâminas femininas Billie criou um anúncio dedicado ao Movembro (o evento anual dedicado ao “mês do bigode”), proclamando que “as mulheres também têm bigode” e não devem ter vergonha de o deixar crescer. À primeira vista é um passo na direcção certa para a igualdade (identidade) de género – mas na realidade é um impulso por parte das grandes empresas para que as pessoas não desafiem o actual status quo de modo mais substancial, na opinião de Slavoj Zizek.

Um passo para a assexualização?

Creio que se trata em parte de um fenómeno mais amplo, que segue esta lógica: se as mulheres tentarem ser belas ou obedecer aos parâmetros da beleza num sentido tradicional, objectificam-se perante os homens. Como tal as mulheres devem reapropriar-se do seu corpo no sentido de o admitir na sua feiura do dia-a-dia – peludo, gordo, o que seja – de modo a desmistificar os seus corpos, para mostrar que o corpo das mulheres, principalmente os seus órgãos genitais, não são o que são para gáudio dos homens, mas por terem a sua própria função positiva, a qual deve ser reapropriada pelas mulheres pois as mulheres não podem ser reduzidas a ser meros objectos para os homens.

Por um lado, concordo com a sensação de opressão por parte das mulheres, mas vejo um problema nesta lógica. Sejamos sinceros: a sexualidade como tal envolve um certo grau de auto-objectificação. Por exemplo, quando me empenho num acto sexual, quando abraço uma pessoa nua que eu ame, abstraio-me (e essa é a lógica iminente da sexualidade) de todas as coisas desagradáveis que constituem o corpo humano – os maus cheiros, vestígios de sujidade, etc. No mínimo idealizo, de certo modo, o corpo do outro. Sem isto, aproximamo-nos da assexualização.

Apesar de todo o alarido em redor da sexualidade livre liberta das limitações da heterossexualidade binária, na prática aquilo com que estamos a lidar é com um ataque à sexualidade como tal.

Forçar uma liberdade sexual imaginária só trará uma opressão ainda pior

Todos sabemos que a sexualidade humana é mais que algo biologicamente predeterminado – como provam as experiências traumáticas dos transgénero. Na nossa identidade psicológica, podemos ser uma mulher presa num corpo masculino, e estamos dispostos a sofrer bastante para alterar o nosso corpo de modo a que este corresponda à nossa identidade psicológica interna. Tudo isto sucede. Não há aqui uma determinação biológica directa.

Contudo, saltar disto para a constatação de que as diferenças sexuais se encontram entre os engendros opressores do poder e que devemos alegremente envolver-nos em múltiplas identidades sexuais, não passa de um jogo, no qual tudo está em aberto e onde se nos livrarmos da opressão sexual binária heterossexual iremos desfrutar de uma sexualidade realmente livre, é um erro imenso. Oblitera a lição essencial da psicanálise freudiana, de que a sexualidade por si só é algo extremamente obscuro.

Não é um campo feliz. É um domínio de traumas profundos, ensaios masoquistas e por aí fora. É por isso que afirmar que se nos livrarmos desta imensa dualidade de género masculino-feminino não chega e, parafraseando Mao Tse Tung que afirmava que deviam desabrochar em nós milhares de flores, é dizer que devem desabrochar milhares de identidades e que todos viverão uma vida sexual feliz e satisfatória. Não, a sexualidade humana, recordo, é inerentemente traumática. É uma confusão enorme, não há aqui uma fórmula simples.

Como o demonstra a experiência do politicamente correcto, se tentarmos libertar a sexualidade deste modo simplista, libertar-nos de toda esta normalidade heterossexual e deixarmos proliferar todas estas formas diferentes, acabamos com uma opressão ainda pior.

Todos devem ter a liberdade de se objectificar

O que muitos não aceitam é que o problema não é a objectificação como tal – não é todo o jogo da sedução sexual, o namoriscar entre homens e mulheres – é que, de certo modo, acabamos precisamente por nos objectificar ao nos querermos apresentar como sedutores. O problema não é que não deva existir objectificação – é que cada interveniente sexual devia ter o direito a controlar o seu/sua/nossa objectificação.

Não esqueçamos que com todos os protestos feministas contra a objectificação, o que incomoda realmente os fundamentalistas, por exemplo em países muçulmanos, é precisamente quando uma mulher brinca com a sua própria objectificação… Por exemplo, imitando uma felação, brincando com uma banana na boca. O que incomoda os homens é que uma mulher, nesta situação, não está a ser objectificada pelos homens, está a objectificar-se ela própria jogando com essa objectificação a seu bel-prazer.

Instrumento do capitalismo

Como é habitual neste tipo de eventos, não devemos subestimar o grau no qual se trata de um fenómeno relativamente marginal. Estejam certos, a maior parte das mulheres não quer deixar crescer um bigode e, se quiserem – deixem-nas fazer o que quiserem. Frequentemente detecto nestas novas identidades transgénero algo que me desagrada. É que enquanto que antes os padrões heterossexuais eram impostos e oprimiam as outras identidades, agora, se lermos todos os seus textos, nalguns deles encontramos a ideia de que se ainda estamos dentro da sexualidade heterossexual somos de algum modo retardados. Que para ser realmente livres, temos que jogar com a nossa identidade e fazer desvanecer todas as linhas.

Não concordo com isto. Esta ideia de rearranjar livremente, alterando o nosso corpo e jogar com as identidades é algo que encaixa perfeitamente no capitalismo consumista actual com a sua infinita dinâmica. Há uma grande probabilidade das grandes empresas já estarem a participar nestas jogatinas. Provavelmente alguns dos nossos leitores ainda recordarão um anúncio da Gillette de há cerca de meio ano, no qual um pai ajuda a sua ex-filha, que agora é um rapaz, a barbear-se pela primeira vez com uma Gillette. Não há absolutamente nada de subversivo nesta atitude do “joga com identidades diferentes, experimenta tu mesmo”. Trata-se apenas de uma forma de sexualidade perfeita para o capitalismo consumista mais recente.

Há uma lição a retirar de tudo isto, não só dos anúncios, que depois nos é vendida com um toque progressista, mas também o facto de como – recordem como há dois ou três anos o movimento transgénero irrompeu nos EUA com uma campanha imensa sobre casas-de-banho que deviam ser inclusivas a todas as identidades sexuais, não só masculino/feminino – todo o aparato das grandes empresas dos EUA – todos os grandes nomes como Tim Cook ou Zuckerberg – todas eles seguiram apaixonadamente por esta via e a apoiaram. Infelizmente, este tipo de luta pela libertação das liberdades sexuais é algo que facilmente pode ser utilizado como parte da engrenagem capitalista para oprimir exigências populares mais perigosas, mesmo até e principalmente os protestos feministas genuínos.

As elites tentam divergir a emancipação feminina da alteração política do status quo

Por um lado, (e apoio e celebro tal de pleno coração) temos um certo despertar das mulheres. Existem formas de subordinação feminina, que são parte da nossa tradição e anterior mesmo à sociedade de classes, ainda das sociedades tribais – onde a mulher é passiva, sujeita ao homem. Como sucede sempre, o sistema tenta redireccionar este despertar numa direcção que não afecte mesmo as relações de poder. Vamos ter uma quota para as mulheres, as mulheres vão ser apresentadas na comunicação social de modo mais respeitoso. Mas na nossa sociedade irão persistir as mesmas relações de poder. É isto que todos estes que lutam contra o patriarcado normalmente não compreendem.

No Ocidente desenvolvido, a ideologia dominante já não é o patriarcado. É uma espécie de falsa abertura que funciona também como modo de evitar uma mobilização radical e soluções radicais. Quando nos centramos em uma mulher poder ou não deixar crescer barba ou se um homem pode utilizar batom, ninguém quer falar sobre a perpetuação da opressão sobre as mulheres, nem da cultura da violação no México e na África do Sul. Temos que nos centrar nas lutas que sejam realmente decisivas para decidir a liberdade das pessoas.

Slavoj Zizek é professor na European Graduate School, investigador no Instituto de Sociologia da Universidade de Ljubljana e professor visitante nas universidades de Columbia, Princeton, Nova Iorque e Michigan. Em 2014 recebeu a Medalha de Honra da Faculdade de Belas Artes do Porto. Tem dezenas de obras editadas em Portugal, sendo as mais recentes “Como Derrotar Trump” (Relógio D’Água, 2018), “A Coragem do Desespero” (Relógio D’Água, 2017), “A Europa à Deriva” (Objectiva, 2016).

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