Facebook em era populista: modo de usar

Vamoláver. O problema do extremar de posições não está no Facebook. O Facebook é uma lupa que aumenta a realidade. Não a inventa, mas promove-a. Ilumina aspetos que no antigamente dos media finitos não tinham espaço.

Se estás descontente por a tua timeline só dar extremistas das ultras-direitas — a fofinha dos iniciativas e a bruta do deputado da Cofina — e/ou infeliz porque só vês reações igualmente extremadas dos teus amigos da esquerda, se lamentas o desaparecimento da política negociada, da democracia, a sua substituição por uma guerra de ideologias sem quartel pela tomada do poder, o teu remédio não é sair do Facebook, a tua desilusão não pode ser com a lupa, não coloques a culpa na ferramenta.

Coloca-a em ti em primeiro lugar. A autocrítica é essencial. É o primeiro marco do caminho em direção à busca de soluções, de consensos, de acordos que satisfaçam as partes. Anota quantas vezes reagiste tu própri@ a quente, epidermicamente. Quantos links partilhaste pelo título, sem abrir.

Repara como tens deixado que te hackem os sentidos: colocam-te a chiclete do dia, uma irritação ideológica qualquer de segunda ou terceira importância, e já foste, pimba, a mastigar enquanto na pista ao lado os assuntos de primeira importância passam sem crivo público algum.

A tua autocrítica certamente é mais diversa que os exemplos supra. Fá-la.

Depois faz isto: não reajas de imediato, não saltes da cadeira, pensa 2 vezes, 3 vezes, 5 minutos, lê também @s amig@s da direita, lê com abertura e não com 2 pedras na mão, dá atenção aos argumentos e não às frases feitas nem aos títulos link bait.

Sem isso não haverá caminho para o consenso, para o centro, para as soluções.

Sem isso arriscas-te a que um dia um dos lados triunfe, não importa qual porque nesse dia a cidade/país/continente estará dividida ao meio e toda a gente menos o 0,01% terá perdido o (pouco) poder de que dispunha.

São precisos novos argumentos. E há tanto por onde começar. Olha, este: não se resolvem disparidades sócio-económicas mantendo os atuais privilégios. Pintem-se de amarelo ou azul ou vermelho, esse truísmo manter-se-á inalterado. Sem negociação não há solução. Sem acordo não há democracia. Sem cedências não há entendimentos. Sem entendimentos ninguém ganha nada.

Paulo Querido é ex-jornalista, responsável pela maior comunidade de Blogs em Portugal e autor das obras “Amizades virtuais, Paixões reais – A Sedução Pela Escrita“, “Blogs” e “Homo Conexus”.