Irá a esquerda global permitir que os nacionalistas de direita assumam o controlo do descontentamento social?

Três décadas passadas do colapso do comunismo na Europa de Leste, há agora descontentamento para com o capitalismo liberal. Este está a beneficiar mais a direita global do que a esquerda.

Hoje, é lugar comum enfatizar a natureza “milagrosa” da queda do Muro de Berlim neste mês, passados 30 anos. Na altura, era como se um sonho se tivesse materializado, era algo inimaginável até um mero par de meses antes. Pouco depois, os regimes comunistas colapsaram como um castelo de cartas.

Quem, antes de então, conseguia imaginar eleições livres na Polónia com Lech Walesa eleito presidente? Contudo, devemos acrescentar que um “milagre” ainda maior ocorreu um par de anos mais tarde: o regresso dos ex-comunistas ao poder por via de eleições democráticas. Em pouco tempo Walesa foi completamente marginalizado e tornou-se muito menos popular que o general Wojciech Jaruzelski que, década e meia antes, esmagara o Solidariedade com o golpe de Estado militar.

Nesta altura, mencionamos frequentemente o “realismo capitalista”: os europeus de Leste pura e simplesmente não possuem uma imagem realista do capitalismo. Estavam cheios de expectativas imaturas e utópicas. Na manhã depois do entusiasmo dos dias embriagados de vitória, as pessoas tiveram que ficar sóbrias e sujeitar-se ao doloroso processo de aprender as regras da nova realidade, i.e., o preço que temos que pagar pela liberdade política e económica. Foi, efectivamente, como se a esquerda europeia tivesse morrido duas vezes: primeiro como esquerda comunista “totalitária”, depois como esquerda democrática moderada que, desde os anos 90, tem vindo gradualmente a perder terreno.

Contudo, as coisas são um pouco mais complexas. Quando as pessoas protestaram contra os regimes comunistas da Europa de Leste, o que a esmagadora maioria das pessoas tinham em mente não era o capitalismo. Queriam segurança social, solidariedade e justiça. Todos queriam ter a liberdade de viver as suas próprias vidas fora do controlo do Estado e juntar-se para conversar como bem quisessem. Queriam uma vida simples de honestidade e sinceridade, livre da doutrinação ideológica primitiva e da vigente hipocrisia cínica.

Resumindo, os vagos ideais que inspiraram os protestantes eram em grande parte oriundos da própria ideologia socialista. E, como aprendemos com Freud, o que é reprimido normalmente regressa de forma distorcida – no nosso caso, o que se encontrava reprimido no imaginário dissidente regressou sob a forma do populismo direitista.

Agora não é de admirar que, após uma imensidão de tempo e pregar a abertura e a globalização, os países desenvolvidos estejam a construir novos muros, pois a nova fórmula é o livre movimento de bens e não o livre movimento das pessoas.

Na sua interpretação da queda do comunismo do Leste europeu, Jürgen Habermas provou ser o supremo fukuyamista de esquerda, aceitando silenciosamente que a actual ordem liberal-democrata é a melhor possível, e que, embora nos devamos bater para que se torne mais justa, etc., não devemos questionar as suas premissas basilares.

É por essa razão que acolhemos precisamente o que muitos à esquerda viram como o grande defeito dos protestos anti-comunistas na Europa de Leste: o facto desses protestos não serem motivados por quaisquer visões novas sobre um futuro pós-comunista – como ele o colocou, as revoluções na Europa Central e de Leste tinham só a ver com o que apodou de revoluções de “rectificação” ou “acompanhamento”: o seu propósito era o de permitir que as sociedades no centro e no Leste europeu obtivessem o que os europeus ocidentais já possuíam. Por outras palavras, o regresso à “normalidade” europeia.

wook-natal-mrecContudo, coisas como os Coletes Amarelos, e protestos semelhantes, NÃO SÃO definitivamente movimentos de acompanhamento. Encarnam o invulgar reverso que caracteriza a actual situação global. O velho antagonismo entre “pessoas comuns” e as elites financeiras-capitalistas regressou com sede de vingança, com as “pessoas comuns” a explodirem em protesto contra as elites acusadas de estarem cegas para com o seu sofrimento e exigências.

Contudo, a novidade é que a direita populista demonstrou estar muito mais apta a canalizar estas explosões na sua direcção do que a esquerda. A propósito dos Coletes Amarelos, Alain Badiou tinha toda a razão em dizer que: “Tout ce qui bouge n’est pas rouge” – “nem tudo o que se move (cria inquietação) é vermelho”.

A direita populista actual participa na longa tradição dos protestos populares que eram antes predominantemente de esquerda. Algumas das revoltas actuais (Catalunha, Hong Kong) podem até dar-se o caso de por vezes serem apodadas de revoltas dos ricos – recordemos que a Catalunha é, juntamente com o País Basco, a zona mais rica de Espanha e que Hong Kong é per capita muito mais rica que a China. Não há solidariedade com os explorados nem com os pobres da China em Hong Kong, nenhuma exigência de liberdades para toda a China, só a exigência de manter a sua posição privilegiada.

Aqui, então, se encontra o paradoxo que temos que afrontar: o desapontamento populista para com a democracia liberal é a prova de que 1989 e 1990 não foram meras revoluções de acompanhamento. Pelo invés, foram sobre algo mais do que a obtenção da “normalidade” liberal-capitalista. Freud falou-nos acerca de “Das Unbehagen in der Kultur” (o descontentamento/inquietação na cultura); hoje, 30 anos após a queda do Muro, a nova vaga continua de protestos dá testemunho de um novo tipo de Unbehagen no capitalismo liberal, e a questão crucial é: quem irá articular este descontentamento? Iremos deixar que os populistas nacionalistas a explorem? Aqui reside o grande imbróglio com que a esquerda se depara.

Slavoj Zizek é professor na European Graduate School, investigador no Instituto de Sociologia da Universidade de Ljubljana e professor visitante nas universidades de Columbia, Princeton, Nova Iorque e Michigan. Em 2014 recebeu a Medalha de Honra da Faculdade de Belas Artes do Porto. Tem dezenas de obras editadas em Portugal, sendo as mais recentes “Como Derrotar Trump” (Relógio D’Água, 2018), “A Coragem do Desespero” (Relógio D’Água, 2017), “A Europa à Deriva” (Objectiva, 2016).

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