A Principal Contradição: Poder Empresarial vs Populismo Progressista

Para os plutocratas, o último Verão foi bastante assustador. Estão a erguer-se dois candidatos que receiam. Os candidatos de confiança estão aquém das expectativas. As Presidenciais de 2020 podem acabar por se tornar num filme de terror na vida real: Pesadelo em Wall Street.

“Os executivos de Wall Street que querem ver Trump pelas costas”, relatou o Politico em Janeiro, “nomeiam uma lista consistente de candidatos apelativos já nomeados que incluem o ex-vice-presidente Joe Biden, o senador Cory Booker de Nova Jersey, Kirsten Gillibrand de Nova Iorque e Kamala Harris da Califórnia.”

Mas sete meses depois, estes “candidatos apelativos” não parecem ser lá muito apelativos para os eleitores. A primazia de Biden parece estar tremida, enquanto que os outros favoritos de Wall Street já não inspiram a confiança dos investidores: Harris está preso num único dígito, Booker está vários pontos abaixo desta e Gillibrand acabou de desistir da candidatura.

Entretanto, Bernie Sanders e Elizabeth Warren estão a atrair multidões amplas e a subir nas sondagens. Em Estados cruciais à partida como o Iowa e principalmente Nova Hampshire, as sondagens mais credíveis indicam que Biden está à frente por uma escassa margem.

“O maior receio dos banqueiros” é que “a nomeação vá para um cruzado anti-Wall Street” como Warren ou Sanders, reporta o Politico, citando o CEO de um “banco gigante” que afirmou: “Não pode ser a Warren e não pode ser o Sanders. Tem que ser um centrista e alguém que possa ganhar.”

Mas o maior receio entre as elites empresariais é que Warren ou Sanders possam ganhar – e depois utilizar a presidência para combater a oligarquia. Se não conseguirem promover Biden, não há um candidato forte o suficiente para os travar.

Biden, Warren e Sanders, como relatou o New York Times, são “um trio que aparenta ter-se separado dos restantes no campo das primárias.” Em quarto lugar, de acordo com a média das sondagens de âmbito nacional, Harris fica muito atrás.

O notório registo de Biden no que toca a servir a América empresarial espalha-se por cinco décadas. Está ansioso por continuar a cumprir essa tarefa a partir do Escritório Oval, mas conseguirá lá chegar? Um cabeçalho recente do Times realçava razões para duvidar: “Números de Joe Biden nas Sondagens Mascaram um Desafio com o Entusiasmo”. O entusiasmo por Biden tem sido grande entre as elites alinhadas com os democratas, mas não entre os eleitores alinhados com os democratas.

Enquanto que os órgãos de comunicação empresariais – e órgãos “públicos” onde se imiscuem privados como a NPR News e a PBS NewsHour – furtam-se às contradições das primárias, Sanders martela directamente sobre o modo como os gigantes empresariais estão a impulsionar o facciosismo da comunicação social e a minar a democracia.

Embora já tenha inspirado massacres comunicativos – tal como os agora notáveis 16 artigos anti-Sanders publicados pelo Washington Post num período crucial de 16 horas no decorrer das primárias de 2016 – a campanha de Sanders é agora tão avassaladora que até mesmo os órgãos de comunicação social que lhe são hostis têm que lhe dar algum espaço. Numa peça de opinião que assinou e que o Post publicou, Sanders confrontava a abordagem de Biden no que toca à defesa dos ricos.

Sob o cabeçalho “A Via mais Rápida para a Igualdade Racial é Através dos Um Porcento”, Sanders citava Biden: “Não creio que 500 milionários sejam a razão pela qual temos problemas”. Sanders respondia, “discordo cordialmente” – e continuava: “a minha perspectiva é que qualquer candidato que afirme acreditar que as vidas negras importam tem que enfrentar as instituições que têm explorado as vidas negras de modo contínuo.”

wook-natal-mrecTamanha visão sobre a exploração sistemática é um sacrilégio para o credo secular de que a acumulação de riqueza até se atingir o estatuto de bilionário é uma espécie de ascensão divina. Contudo, Sanders ousadamente desafia esse tipo de santidade, lançando luz sobre as realidades do capitalismo empresarial.

Os problemas estruturais exigem soluções estruturais”, realçava Sanders no seu artigo no Post, “e as promessas de mero ‘acesso’ nunca garantiram aos negros americanos qualquer igualdade neste país… O ‘acesso’ a cuidados de saúde é uma promessa vazia quando não conseguimos pagar prémios de seguro, pagamentos parcelares ou dedutíveis. E a ‘oportunidade’ de uma educação igual só o é no nome quando não conseguimos pagar para viver num distrito com boas escolas ou pagar as propinas de uma universidade. Os empregos, a saúde, a justiça criminal e a educação estão correlacionadas, e não atingiremos o progresso a não ser que lidemos de raiz com os sistemas económicos que oprimem os americanos.

Tal como muitos outros progressistas, continuo a apoiar activamente Sanders como o candidato que ultrapassa os eufemismos, dá nome aos vilões ultra-poderosos – e desafia directamente aqueles no poder que têm impulsionado e jogado com os sistemas económicos contra as pessoas da classe trabalhadora.

Esses sistemas estão a funcionar muito bem para os ultra-ricos, como o CEO de um banco gigante que disse à Politico que “não pode ser a Warren e não pode ser o Sanders”. Essa é a decisão de Wall Street. A decisão da rua principal está ainda por se ouvir.

Norman Solomon é co-fundador e coordenador nacional da RootsAction.org. Foi delegado de Bernie Sanders na Califórnia à Convenção Nacional Democrata de 2016 e actualmente é coordenador da relançada e independente Rede de Delegados do Bernie. Solomon é autor de uma dezena de obras, entre as quais War Made Easy: How Presidents and Pundits Keep Spinning Us to Death.

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