Programa? Qual programa?

Estamos todos a embarcar na aVentura: ele está a tocar-nos como se fossemos um instrumento, lendo a pauta fornecida pela alt-right americana em combinação com o Kremlin ou vice-versa. Os eleitores dele, brancos racistas e misóginos, leitores do Correio da Manhã, adeptos do Benfica e clientes da CMTV, não têm nenhum racional político ou social e não os preocupam as cambalhotas e mudanças de programa político.

“Programa político”? perguntam. Isso come-se?

Não. O que Ventura lhes dá ao pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia é o prato do dia de ódio, de reforço de identidade, de promessa de regresso a um poder que esses brancos racistas e misóginos acham que perderam para os pretos, os ciganos e as cabras das mulheres que fumam e votam e se divorciam, agruparam-se em torno dele e esse é o poder coletivo dos chegas.

E nós tunga, já caímos no mais recente truque: vitimizá-lo (aos olhos deles) com essas minudências dos “programas eleitorais”.

Para o Correio da Manhã, perdão, para o Chega o “programa eleitoral” e a AR são apenas e só veículos de transporte para o poder. Não contam: são meios, o que conta é o fim.

Usam os meios para reforçar o fim. Usam-nos, e ao nosso logro ético e moral que nos faz imediatamente apontar os holofotes no máximo a Ventura, para o iluminar através da nossa energia e lhe dar esplendor. “Vêem como eles nos odeiam? Estamos no caminho certo!”

E estão.

Mas não chegarão lá.

Não há retorno. Não há regresso ao poder perdido pelo o branco racista misógino ao longo das últimas décadas.

É uma batalha ganha. Mas temos de a travar com as nossas melhoras armas.

Paulo Querido é ex-jornalista, responsável pela maior comunidade de Blogs em Portugal e autor das obras “Amizades virtuais, Paixões reais – A Sedução Pela Escrita“, “Blogs” e “Homo Conexus”.