Onde sair na rotunda: para onde se dirigem a seguir os coletes amarelos

Rápido! Existem outras vidas? – É impossível
dormir em riqueza. A riqueza sempre foi propriedade pública.
Arthur Rimbaud

Foram bastantes meses de quietude para os gilets jaunes, até recentemente era omnipresente o seu amarelo florescente, dos coletes de emergência rodoviária, a protestar nas rotundas França fora e nas televisões de todo o mundo. Depois de terem abalado as fundações do sistema político francês tanto quanto qualquer movimento de protesto da geração anterior – um Sábado atrás de outro, bastante depois dos comentadores muito sérios terem previsto que arrumassem a mochila e regressassem para onde quer que tivessem vindo – durante o Verão os protestos dos coletes amarelos tornaram-se notoriamente escassos e ainda mais intervalados.

Culpemos as famosas férias francesas, que arrastam para o seu vácuo mesmo aqueles para quem les vacances não sejam de todo lá grandes férias. Ou culpem-se as eleições Europeias de 26 de Maio, que sugaram o ar das ruas e aspergiram sobre as limitações do estilo de política “atirem tudo menos o lava-louças” dos gilets jaunes. Ou culpemos as vagas de temperatura que quebraram records subindo bem acima dos 40º C (104º F) em todo o país entre Junho e Julho.

Mas as estações passam. As férias terminaram, o Verão está a dar lugar ao Outono, e as condições subjacentes que causaram a maior insurreição social do período entre 2010 e 1968 não mudaram nem um pouco. A partir de agora, parece que os coletes amarelos regressarão em breve, de uma forma ou outra, ocupando rotundas e pelo menos uma faixa de terreno à frente dos políticos do status quo francês.

Agora no pico do seu segundo acto, seja ele qual for, questionamos: o que aprendemos até agora com estas pessoas e com os seus coletes amarelos? O que querem, e para onde se dirigem?

Não querem Macron… mas e quanto à Le Pen?

Os protestos dos gilets jeunes começaram a 17 de Novembro de 2018 como reacção ao anúncio por parte do governo de um aumento dos impostos sobre o combustível, apresentado ao público em parte como uma medida ambientalista. A dimensão e a intensidade do primeiro protesto – organizado nas redes sociais de modo descentralizado e incluindo centenas de milhar de pessoas em toda a França – abalou a nação, tal como a violenta repressão policial ordenada pelo presidente Emmanuel Macron como resposta.

Logo à partida, os protestos foram extremamente abrangentes e por vezes contraditórios, tornando difícil posicionar os coletes amarelos no habitual eixo político esquerda-direita. O que de facto unia os protestos era o desânimo generalizado para com as condições sociais, combinados com uma rejeição visceral do governo e do impetuoso jovem presidente.

Em todas as sondagens disponíveis, os manifestantes gilets jaunes que afirmavam ter votado em Macron nas eleições nacionais de 2017 não passavam de um mero dígito. Dois anos mais tarde, nas recentes eleições de 26 de Maio, o total do voto dos coletes amarelos no República em Marcha, partido de Macron, manteve-se minúsculo.

Noutros locais nas eleições, cada uma de duas listas de gilets jaunes obtiveram menos que 0,5%, com a maioria dos manifestantes a abster-se ou a votar em branco, enquanto que aqueles que realmente votaram preferiram a extrema-direita de Marine Le Pen, o partido da Frente Nacional (recentemente rebaptizado de União Nacional). Embora em parte este resultado possa ser explicado pelo panorama eleitoral de uma esquerda fracturada em múltiplas listas e incapaz de se impor na esfera pública, os resultados são inegavelmente preocupantes.

Um relatório intitulado “Divisões Ideológicas no Movimento dos ‘Coletes Amarelos’”, preparado pelo colectivo de investigação Quantité Critique e publicado pela delegação de Bruxelas da Fundação Rosa Luxemburgo em Maio de 2019, encerrava com o argumento de que “a habilidade dos coletes amarelos em se manterem unidos e resistirem ao apelo do voto em Le Pen será indubitavelmente testado nestas eleições [Europeias]”. À primeira vista, parecem ter chumbado no teste.

Isto significará que a insurreição dos coletes amarelos que, afinal de contas começou como um protesto contra o imposto sobre o carbono, é na realidade de direita, ou está a virar à direita na rotunda?

Há que tentar conhecê-los

Entre as “divisões ideológicas” e um segundo estudo levado a cabo pela Quantité Critique, publicado em Junho de 2019 e elucidativamente intitulado “O Cerne do Movimento dos Coletes Amarelos Rejeita a Extrema-Direita”, são-nos providenciadas as sondagens mais amplas até à data nas nossas tentativas de conhecer mais acerca dos gilets jaunes.

O primeiro factor digno de nota é que dois-terços dos manifestantes dos coletes vermelhos sondados são trabalhadores e assalariados, sendo que quase três-quartos podem ser considerados de classe trabalhadora. Ainda mais elucidativo, 90% dos participantes relatam ter problemas em conseguir pagar as contas de um modo geral, enquanto que 62,7% relatam ter problemas em pagar as contas consecutivamente todos os meses.

Embora muitos comentadores tenham casualmente descrito os gilets jaunes como sendo um fenómeno rural, a Quantité Critique realça que só 36% dos manifestantes vivem em áreas rurais, residindo a maioria em cidades ou, principalmente, em cidades que se encontram na periferia de cidades maiores. De facto, como conclui o relatório, os gilets jaunes não são constituídos na sua maioria de “habitantes rurais deixados para trás, mas pela mobilização de cidadãos desfavorecidos de todo o país”.

Esta facto por si só, a pertença à classe dos trabalhadores pobres ou quase pobres, descreve muito mais os coletes amarelos do que qualquer outra.

Outra característica crucial dos manifestantes gilets jaunes é a sua resistência às etiquetas ideológicas. Cerca de 70% recusam ser de esquerda ou de direita, ou recusaram responder a esta pergunta. Entretanto, só 15% afirmaram ser de esquerda, 12% de direita e pouco mais de 3% do centro.

Uma análise às duas áreas nas quais os gilets jaunes são normalmente considerados como tendo posicionamentos de direita revelam resultados ainda mais interessantes. A imigração mal surge no leque de assuntos importantes, nem surge nos materiais publicitários ou nos debates públicos associados ao movimento. Entretanto, mais de 82% dos manifestantes sondados concorda de certo modo que “se as coisas continuarem como estão, em breve iremos experienciar uma grande catástrofe ambiental”.

O relatório conclui que “as exigências mantêm-se resolutamente dirigidas para a justiça fiscal, a redistribuição da riqueza por intermédio dos serviços públicos e a democratização das instituições por meio de referendos de iniciativa popular. A serem algo, estas exigências são de esquerda.”

Portanto, não são ideológicos, votam na extrema-direita, protestam com exigências de esquerda… o que pensar de tudo isto?

É… complicado

É comum supor que os movimentos sociais tenham por base exigências, e avaliá-los no progresso que a estas exigências dizem respeito. O que querem mesmo? E, sim, o que fizeram mesmo? Servem como meios comuns para os descartar. Esta tendência pronuncia-se ainda mais numa era na qual a militância sem-lucro e as ONGs fundamentadas em exigências continuam predominantes entre o declínio generalizado da organização popular em massa.

Na sua obra seminal, “Poor People’s Movements: Why They Succeed, How They Fail”, Frances Fox Piven e Richard Cloward criam a argumentação convincente para uma interpretação diferente dos movimentos sociais. Os autores apontam para o longo historial dos movimentos das pessoas pobres que, com base num sentimento generalizado de não terem qualquer outro recurso à sua disposição, se manifestam mais como actos difusos de desafio contra todo o sistema. Mais do que movimentos, como normalmente nos condicionamos a vê-los, trata-se de insurreições generalizadas de grupos inteiros de pessoas que já não estão dispostas a permitir que as suas queixas individuais sejam arquivadas num qualquer gabinete e deixadas a apanhar pó.

A insurreição dos gilets jaunes é, acima de tudo, um movimento das classes trabalhadoras de França, a assinalarem a sua rejeição dos negócios como de costume, com toda a confusão ideológica que tal comporta. Tal é compreensível, principalmente dada a viragem para a direita na política, não só em França, mas em todo o globo, que esta confusão inclua pessoas que se considerem de direita. Inclui também pessoas que votaram na direita porque vislumbram Le Pen como sendo a voz de facto da oposição no país, uma noção que tanto Le Pen como Macron se esforçaram arduamente para criar, e que a fraqueza da esquerda ajudou a solidificar.

Esta é a real verdade que leva a uma compreensão mais profunda dos coletes amarelos no momento actual. Rejeitam o estado actual da França, e na ausência do que vislumbram ser uma alternativa progressista credível, alguns irão virar-se para qualquer voz que se erga contra o status quo. Mas note-se que a maioria dos gilets jaunes votaram em branco ou abstiveram-se por completo de votar nas duas últimas eleições principais. Esta foi a real mensagem maioritária do movimento: que a política do país como um todo já não funciona para eles. Neste sentido, o papel decorrente dos coletes amarelos na actual conjuntura ainda está na rotunda, a sua saída ainda está por decidir.

Onde sair da rotunda

O contributo mais relevante de Piven e Cloward é não só a sua observação acerca dos movimentos dos pobres, mas a argumentação subsequente de que esta forma de protesto pode na realidade ser a mais eficaz para todo um conjunto de pessoas que foi mantida fora do processo político.

As classes trabalhadores franceses foram espremidas até à medula pelo governo de direita republicana de Nicolas Sarkozy, e depois esfaqueadas nas costas pelo governo do dito Partido Socialista de François Hollande. Agora um presidente que fez a campanha com uma mensagem de mudança, mas que age como os seus predecessores, a forçar as mesmas políticas que afectaram essas mesmas pessoas, diz-lhes que têm de pagar mais para serem afligidos. Que mais podem fazer perante tamanha exigência? Se pelo menos a esquerda tivesse algo a dizer quanto a isto…

Bem, de facto, em 2017 um amplo agrupamento de esquerda uniu-se em redor do França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon e terminou a dois pontos de ultrapassar a Le Pen e avançar para se bater com Macron na segunda volta das eleições. Contudo, este grupo já em si frágil e sitiado viu-se extremamente afectado por esta derrota. Desde então, a possibilidade de um projecto comum impossibilitou-se graças a uma combinação de lutas internas, erros de cálculo por parte da liderança, defeitos estruturais e pura fadiga. Na sua forma fragmentada e incoerente, a esquerda no seu sentido mais amplo encontra-se hoje eclipsada pelas estrelas negras gémeas de Macron e Le Pen.

O mais próximo de um vislumbre de luz nas eleições de 2019 chegou-nos não da esquerda tradicional mas do partido Os Verdes, Europe Écologie Les Verts, que captou 13,5% dos votos. A especulação inicial de que Os Verdes pudessem tentar construir uma nova frente de esquerda até à data não se materializou, em vez disso o partido inclinou-se mais para uma política centrista em torno de uma reforma do mercado. Contudo, tal permanece por esclarecer, tal como o futuro percurso político das muitas pessoas recém politizadas que votaram n’Os Verdes para fazerem tudo o que for necessário para reverter a actual crise climática.

Para a esquerda francesa, o objectivo deverá ser reconstituir-se de modo a ser capaz de ouvir e subsequentemente responder aos melhores instintos – e negando categoricamente as piores inclinações – contidos no seio da emaranhada massa que constitui os coletes amarelos. Uma esquerda francesa renovada reconheceria a necessidade de trabalhar em conjunto por entre as suas diferentes tendências para criar um terceiro pólo político que possa atrair pessoas com base num programa claro centrado no aumento dos rendimentos e na igualdade na distribuição da riqueza, lidando com as alterações climáticas e outras questões sociais fazendo com que as grandes empresas e as elites ricas ombreiem a maior parte dos custos.

Para os gilets jaunes, é improvável que o Outono testemunhe alguma forma de renovada actividade. E quanto aos meses mais árduos de Inverno? Recordo bem o papel do Inverno na desmobilização dos acampamentos Occupy Wall Street que, tal como os coletes amarelos, se debatiam com a pesada repressão policial e com a sua própria heterogeneidade ideológica. Mas acredito também que a actual renovação da esquerda dos EUA – desde as Black Lives Matter passando por Bernie Sanders e acabando nos Socialistas Democráticos da América – não seria possível sem a abertura criada pelo Occupy Wall Street.

De igual modo, os gilets jaunes já se pronunciaram, criando novas aberturas no discurso político para aqueles que estiverem dispostos a ouvi-los. E a sua voz irá erguer-se novamente, de um modo ou outro, em toda a sua incoerência, sabedoria e imediatismo. Qual a saída da rotunda – seja esta pela esquerda ou pela direita, para algo melhor ou para de onde vieram – será decidido pelos projectos políticos concretos que forem delineados para reflectir, incluir e servir a classe trabalhadora da França.

Ethan Earle reside em Paris e é consultor político especializado em comércio internacional e em campanhas trabalhistas, economia social e solidária e na construção de pontes entre progressistas europeus e norte-americanos. Colabora actualmente com a revista The Nation, com o Partido da Esquerda Europeia e com o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde no Parlamento Europeu, é dirigente do Comité Internacional dos Socialistas Democráticos da América. Dirige actualmente a colecção Uma Cerveja no Inferno da Fundação Rosa Luxemburgo, onde foi publicado originalmente este texto.

© Fundação Rosa Luxemburgo, publicado sob expressa autorização.

Tradução: Flávio Gonçalves