Carta aberta aos 20 diretores de jornais que escreveram uma carta aberta apelando ao “sentido cívico” dos leitores.

A vossa carta aberta com um apelo contra a pirataria foi um enorme murro no estômago. É difícil encaixar que pessoas que dirigem jornais em 2020 não tenham estado atentos ao que se passou nas duas últimas décadas nos setores que cometeram o mesmo erro, tirando daí as devidas lições.

1. PDF partilhado não é PDF lido. Não há relação possível entre os pretensos números da pirataria e a quantidade de pessoas que supostamente dela beneficiou.

2. As edições partilhadas transportam consigo um dos elementos financeiros que sustenta o negócio – na maior parte dos vossos jornais, o ÚNICO veículo de retorno financeiro: a publicidade. Na prática, cada ato de partilha é, além de “pirata”, um ato de distribuição do produto, realizado sem custos para o jornal.

3. A chantagem emocional sobre a sociedade, fazendo recair nela uma culpabilidade duvidosa, tem dois efeitos negativos:

* ilude os stakeholders acerca das responsabilidades do que está a suceder ao setor
* é insustentável enquanto modelo de negócio

4. A indústria musical enveredou por esse caminho do queixume e da indignada pressão sobre a sociedade (consumidores e legisladores) há 21 anos. Tinha a favor o facto de o “inimigo” estar concentrado numa operação. Chamava-se Napster. A vitória — fechar o Napster — não só não impediu a perda do controlo sobre a distribuição de trechos musicais como arredou as empresas do futuro do setor. Spotify, Apple, Pandora e Google resolveram o problema que existia, que era um problema de mercado (oferta e procura), e ficaram com o negócio. A pirataria musical desapareceu.

5. Os jornais portugueses aproveitaram a crise de 2008-09 para aprofundar um processo de emagrecimento e renovação de quadros jornalísticos. Resta por explicar porque não se vêem ainda efeitos dessa renovação na qualidade dos seus produtos. Um consumidor de informação não comprará uma assinatura baseado no desesperado apelo do vendedor, seja justa ou injusta a fundamentação desse desespero. Alguns serão tentados a resolver o assunto através de uma esmola, é verdade; as esmolas não resolvem negócios.

6. Os jornais portugueses têm-se distinguido pela obsessão de colocar barreiras entre os seus conteúdos e os potenciais interessados. Talvez fosse mais sensato escutar a voz dos leitores e eliminar algumas delas. Principal candidato: o Nónio. Não se entende o que possa tal barreira dar aos jornais que justifique o que lhes tira, em matéria de relação com os leitores.

Paulo Querido

Paulo Querido é ex-jornalista, responsável pela maior comunidade de Blogs em Portugal e autor das obras “Amizades virtuais, Paixões reais – A Sedução Pela Escrita“, “Blogs” e “Homo Conexus”.

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