Entrevista a Carmen Lima: “as batalhas deste século” serão pela água

Aproveitando o Dia da Terra (22 de Abril) resenhamos aqui a obra “Não Há Planeta B” da autoria de Carmen Lima, coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e fundadora do SOS Amianto, aproveitamos a ocasião para entrevistar a autora. “Não Há Planeta B” foi editado pelas Edições Chá das Cinco.

Carmen Lima é coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e coordenadora fundadora do SOS AMIANTO – Grupo de Apoio às Vítimas de Amianto. Trabalha a temática dos Resíduos, das Políticas de Prevenção da produção de resíduos, o conceito da Economia Circular e o tema do Amianto. Iniciou a carreira profissional em 1999, na área da Gestão de Resíduos. É licenciada em Engenharia do Ambiente, pós-graduada em Gestão Ambiental e em Construção Sustentável, e mestre em Planeamento e Construção Sustentável.

Encontra-se a realizar o doutoramento em Engenharia do Ambiente no IST. Tem participado como oradora e moderadora em diversas conferências, seminários e audições em Portugal, no Brasil, em Cabo Verde, na Polónia, na Bélgica e nos EUA. Foi responsável pela apresentação da rubrica «Querido Ambiente» do programa Queridas Manhãs da SIC.

Na sua obra destaca o problema em que se tornará o acesso à água potável, prevê que no futuro decorram guerras pela água, do mesmo modo que no século XX as houve pelo acesso às reservas de petróleo?

CL: Serão as batalhas deste século, a luta pelo acesso a água de qualidade. Muitos países vivem diariamente uma angústia pelo acesso a água em boas condições de salubridade, sem a mesma expõem a sua população a doenças e pragas, enquanto outros desperdiçam de forma abusiva este recurso, quer nas práticas diárias (banhos, lavar os dentes, lavar as mãos) e por más políticas de gestão de água (com perdas na rede e rega em períodos de maior calor/chuva). Não quero com isto dizer que não se deva tomar banho, lavar os dentes, lavar as mãos regar os jardins. É importante retermos que a “Água” é um bem da Humanidade e que não é um recurso particular em que cada um usa como quer, há princípios que devemos respeitar e um deles é o uso sustentável deste recurso.

Sendo Portugal uma nação costeira, não devíamos estar já a ponderar investir em centrais de dessalinização para a obtenção de água potável e centrais hidrocinéticas (energia das ondas) para criação de energia renovável?

CL: Portugal possui reservas de água potável, o problema é que em muitas regiões estas reservas estão ameaçadas pela poluição. As regiões insulares estão mais limitadas, e as centrais de dessalinização poderão ser uma solução viável para a falta de água, sabendo que a mesma se for sujeita a este processo irá sofrer um agravamento do seu preço, daí a importância da gestão sustentável deste recurso, para que não falte no futuro. Sempre que hajam condições favoráveis à implementação de mecanismos que aproveitem os recursos naturais para a produção de energia limpa, os mesmos deverão ser implementados, é um investimento para o futuro da descarbonização em Portugal. Temos locais que pelas suas características são muito favoráveis e este tipo de investimentos.

Na Cimeira do Clima de Dezembro de 2019, 77 países comprometeram-se a reduzir as emissões dos gases com efeito de estufa até 2050, portanto daqui a 30 anos. Não será isto sinal da morosidade burocrática que demora a aplicar iniciativas consideradas urgentes, exasperando adolescentes como Greta Thunberg? Não estaremos meramente a empurrar com a barriga, adiando as soluções para daqui a décadas ou séculos, quando provavelmente será demasiado tarde?

CL: Nas sucessivas Cimeiras do Clima verificámos que houve avanços e recuos de países relativamente às políticas de prevenção da poluição e redução dos GEE (Gases com efeito de estufa). Parece uma tarefa árdua juntar estes países e promover um compromisso, que em termos temporais está sempre a ser adiado em função do desenvolvimento económico. Curiosamente, um pequeno ser microscópico conseguiu em 2020 parar o Mundo, cessando fábricas, diminuindo a circulação automóvel e aérea e levando a população ativa a adotar novos hábitos de vida e de trabalho, mais suaves e com menos impactes ambientais. A sociedade teve que se reinventar por questões de saúde, de um dia para o outro, e devemos aproveitar este período para repensar os nossos hábitos de vida e as nossas políticas ambientais (local, nacional e internacional). Provavelmente andámos a empurrar estas decisões ambientais com “a barriga” mas na realidade até conseguiríamos implementar mais cedo caso considerássemos que era uma urgência climática ou planetária.

Refere no seu livro a necessidade de podermos consertar electrodomésticos que há décadas duravam quase uma vida e actualmente duram apenas dois anos ou pouco mais, tal não implicará duras leis contra a obsolescência programada?

CL: Esse é um conceito que os fabricantes dos electrodomésticos recusam, no entanto o que se verifica nesta época é que os nossos equipamentos duram pouco mais que o tempo da garantia. Quando procuramos reparar não conseguimos, ou porque não existem peças ou porque as mesmas têm preços exagerados, chegando à conclusão que fica quase ao mesmo preço arranjar um electrodoméstico ou comprar um novo, e isto não pode continuar. As políticas europeias já apontam para a obrigatoriedade dos fabricantes assegurarem que os equipamentos têm a oportunidade de serem reparados quando avariam, e isso é fundamental. Não podemos continuar a viver numa sociedade do descartável, em que compramos, usamos e deitamos fora. O Planeta não aguenta tanto lixo.

Aproveitando o seu alerta no que toca ao consumo de energia doméstica, será seguro afirmar que todos os electrodomésticos comuns como microondas ou máquinas de lavar roupa consomem energia mesmo quando não estão a ser utilizados?

CL: Estando ligados à corrente há sempre uma passagem, mínima que seja, de corrente eléctrica. É nesse sentido que em muitas situações é recomendado o uso de mecanismos que permitam cortar a passagem de corrente eléctrica, para anular este efeito, quando não podemos desligar o electrodoméstico da tomada, como por exemplo de um televisor.

Considera que a real implantação da Economia Circular estará mais dependente do poder autárquico que do poder central?

CL: A implementação da Economia Circular terá que ser realizada de uma forma consistente e é importante que seja incentivada quer pelo poder local quer pelo poder central, através de políticas e incentivos que promovam a mudança nas empresas e nos serviços. Para que mudemos o paradigma económico em Portugal, as questões ambientais terão que ser integradas nas escolhas e nas estratégias das organizações, fomentando as escolhas mais sustentáveis e com menor impacte ambiental.

Quanto às medidas que começamos a ver aplicadas, a troca do plástico pelo papel não incentivará ou agravará o problema da desflorestação, para o qual também alerta?

CL: Não é correto a troca de um material descartável por outro material descartável. A solução passa por reduzirmos o uso destes produtos e limitarmos a sua utilização para as utilizações em que temos que recorrer necessariamente a este tipo de materiais, como por exemplo em meio hospitalar. Por outro lado optarmos por materiais reutilizáveis no nosso dia-a-dia, tal como fazíamos em outros tempos.

As medidas que sugere no seu livro são perfeitamente racionais e aplicáveis com um grau mínimo de esforço, mas o facto de a tecnologia nos ter tornado uma sociedade hedonista e indolente será uma das causas que dificulta a adopção de medidas tão simples como despender uns minutos extra para cortar a nossa própria fruta ou reciclar o nosso lixo?

CL: Tornámo-nos numa sociedade de consumo, em que procuramos produtos prontos a serem consumidos, muitas vezes sem querer perder tempo a descascar a nossa fruta ou a separar o nosso lixo para a reciclagem. Mas não podemos continuar neste formato, teremos que ser proativos e participativos numa ecologia do quotidiano que torne a nossa sociedade mais evoluída.

A indústria automóvel que está actualmente a investir imenso na criação baterias a lítio mais duráveis não estará meramente a trocar um combustível fóssil finito por uma opção mineral, também ela finita?

CL: Este é aquele tema que na atualidade está em constante mudança, o que hoje é verdade amanhã pode já não ser, e em que na realidade não há uma solução perfeita. Continuamos a acreditar que precisamos de descarbonizar a economia e os nossos transportes, e acreditamos que no futuro essa opção passe pelo recurso ao hidrogénio. Mas enquanto não chegamos lá, as soluções que nos são apresentadas não são isentas de impactes e, na minha opinião, não são soluções limpas.

Noto que muitas pessoas ainda não se aperceberam que quando falamos de extinção em massa de 75% das espécies da Terra, estamos a falar da nossa própria extinção. Não julga que seria mais útil ao movimento ambientalista tentar passar esta mensagem? Afinal não é a Terra que vai morrer se nada mudar, somos nós!

CL: Essa mensagem tem vindo a ser divulgada em muitas campanhas de sensibilização ambiental, que mostram que nós poderemos ser a próxima espécie a entrar em extinção. Não é o Planeta que terá um fim, mas sim a espécie humana. Assim, como o tema das alterações climáticas em que os ambientalistas levaram anos até serem ouvidos e considerados, nesta temática continuamos a assistir a um silêncio mudo em que ninguém quer aceitar e acreditar nesta teoria.

Considera que seria útil a inclusão de um programa de consciência ambiental no currículo das aulas de Educação para a Cidadania? Não seria talvez a ferramenta mais útil para alertar e formar as próximas gerações?

CL: É fundamental integrar a educação ambiental de forma transversal no ensino em Portugal, desde o 1.º ciclo até aos cursos universitários, em que o tema ambiental e as suas abordagens serão adotadas de acordo com a idade e área de estudo. Não é de excluir também o ensino sénior, em que as gerações estão sensíveis aos impactes ambientais e na saúde.

Flávio Gonçalves

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