Uma semana de trabalho mais curta é realista e desejável, defende Richard Wolff

Uma semana de trabalho mais curta não só seria mais benéfica para o equilíbrio entre vida e trabalho, como aumentaria também a produtividade e capacitaria os cidadãos para uma participação mais relevante na democracia, defende o professor e economista Richard Wolff.

Líderes mundiais, representantes dos sindicatos e até mesmo alguns empresários de alto perfil como Larry Page, co-fundador do Google, e Richard Branson, da Virgin, têm defendido a adopção de uma semana de trabalho mais curta. Richard D. Wolff, professor emérito de Economia na Universidade do Massachusetts, Amherst, concorda que, se for bem aplicada, uma semana de trabalho mais curta é simultaneamente realista e desejável.

O professor Wolff, cujo programa semanal, Economic Update, é emitido em mais de 100 estações de rádio e chega a 50 milhões de telespectadores via a Free Speech TV, explicou em entrevista à Sputnik o que o leva a crer que uma semana de trabalho mais curta iria beneficiar tanto os trabalhadores como, de modo mais amplo, a economia com um aumento da produtividade e uma democratização mais abrangente.

Estão a ser propostas versões diferentes de semanas de trabalho mais curtas. Uma dessas versões defende que se comprima em quatro dias o número de horas que normalmente trabalhamos em cinco dias, de modo a que se trabalhe o mesmo número de horas num período mais curto de tempo.

Que sistema defenderia como sendo o mais ideal e porquê?

Um dos principais objectivos de reduzir a semana de trabalho é a abertura de vagas de emprego para milhões de pessoas que se encontram desempregadas ou subempregadas (algo ainda mais relevante agora com o COVID-19 e o grande crash capitalista). Uma semana de quatro dias (32 vs 40 horas) dá-nos isso.

Dada a imensa redistribuição de rendimentos e de riqueza PARA CIMA ao longo dos últimos 40 anos, de empregados para empregadores, a nova semana de trabalho de 4 dias/32 horas pagaria aos trabalhadores o mesmo ordenado semanal que recebiam antes, por 5 dias e 40 horas. Seria uma redistribuição PARA BAIXO para corrigir/compensar em parte a anterior redistribuição PARA CIMA.

Uma semana de trabalho mais curta faria muito pelo equilíbrio entre o trabalho e a vida de todos os trabalhadores, dando-lhes mais tempo de descanso e ainda tempo para desenvolverem as suas aptidões, o que aumentaria a produtividade no trabalho. Permitiria também tempo para compromissos cívicos e uma real participação política (tornando a democracia em algo real em vez de meramente formal).

A oposição à semana de trabalho de 40 horas/5 dias veio da parte de empregadores que receavam o efeito desta sobre os lucros e a disciplina no local de trabalho. Vão apresentar agora a mesma argumentação. Mas tal como sobreviveram à semana das 40 horas – e à abolição do trabalho infantil – também irão sobreviver à semana das 32 horas se e quando os trabalhadores a tornarem numa realidade.

Há empregos que funcionam durante 24 horas os 7 dias da semana como os serviços de urgência ou a comunicação social. Iremos precisar de excepções para empregos deste género? Como seriam essas excepções?

Não são necessárias quaisquer excepções. A rotatividade de turnos pode manter o conceito dos dias de 8 horas mesmo nos empregos que funcionem durante 24 horas.

Que um trabalho tenha que ser feito raramente significa que tenha que ser uma só pessoa a concretizá-lo. A rotatividade é uma maneira de partilhar as tarefas. Por exemplo, o trabalho mais duro pode ser partilhado entre todos no local de trabalho, as tarefas mais morosas podem ser partilhadas, bem como as mais desagradáveis, etc. Se for necessário mais treino em determinada tarefa, também esse pode ser partilhado de modo a que o trabalho também seja partilhado. Uma tarefa que demore 16 horas a ser completada pode ser responsabilidade partilhada entre duas pessoas, cada uma num turno de 8 horas, e por aí fora. Os nadadores salvadores normalmente têm que estar nas praias entre 6-10 horas, mas é raro essa tarefa ser atribuída a uma única pessoa. Em vez disso três nadadores salvadores trabalham em turnos sequenciais de 3 horas, por exemplo. Desse modo uma tarefa importante NÃO RECAI sobre uma só pessoa cansada, etc.

Não há o problema de ter que se pagar mais aos funcionários aos fins-de-semana, tal não acarreta um maior esforço por parte das empresas, principalmente as PMEs?

Não há qualquer problema. O sistema hoje já paga mais a umas pessoas do que a outras por considerar alguns empregos como sendo mais produtivos, importantes, etc.

Ao retirarem os fins-de-semana aos trabalhadores subentende-se que esse trabalho é tão crucial/urgente ao ponto de não poder esperar até à segunda-feira seguinte… então pague-se mais aos trabalhadores para compensar essa urgência extra e para os compensar da perda do tempo em família, etc.

A obra de Richard Wolff é ainda inédita em língua portuguesa, mas já se encontra publicada na Galiza.

No Reino Unido 99 porcento dos trabalhadores são funcionários de PMEs, com 250 trabalhadores ou menos. 

Supõe-se que não estejam a nadar em dinheiro. Também, muitas dessas pessoas já trabalham aos fins-de-semana, como em lojas de rua e pequenas mercearias, enquanto que outros trabalham em serviços, como restaurantes, que provavelmente não conseguem pagar três dias de folga aos seus funcionários. 

Como lidaria com estas realidades e preocupações?

Uma semana de trabalho mais curta é um macro-evento transformado em lei e como tal aplicado a todos os negócios, assim sendo a competição entre eles torna-se irrelevante. Se houver um aumento da produtividade, tal irá compensar os efeitos negativos sobre os lucros das PMEs na mudança para uma semana de 32 horas. Além disto, um corte de 20% na semana de trabalho acarreta um aumento de 20% no emprego (na redução do desemprego), o governo iria poupar milhares de milhões em  subsídios de desemprego e assistencialismo ao mesmo tempo que obteria milhares de milhões em impostos dos novos recém-empregados. O governo poderia utilizar essa poupança e essa nova receita para subsidiar a transição das PMEs para a semana de 32 horas. Um governo criativo poderia também exigir 2 horas mensais a cada beneficiário da semana de 32 horas para tarefas sociais úteis. Deste e doutros modos, seriam minimizados os custos das PMEs enquanto que os benefícios para os trabalhadores e para as comunidades teriam um enorme aumento.

Como conseguiríamos alcançar uma semana laboral mais curta acomodando também aqueles que precisam de fazer mais em vez de menos horas, como os empregados por conta própria ou os que se encontram abrangidos por contratos precários/de zero horas?

Voltemos à resposta que dei à 1ª pergunta: uma semana de 4 dias/32 horas aumentaria a procura de mão de obra em cerca de 20%. Passar de 40 horas (5 dias) para 32 horas (4 dias) de trabalho semanal diminui em 20% o horário de trabalho. É aqui que entra a minha estatística [o mesmo ordenado para os 4 dias, o 5º dia seria inteiramente pago como horas extra- NDE]. Claro que já existem investigações sobre os efeitos da redução da semana de trabalho… efectuadas em Economia, Estudos do Trabalho e Sociologia.

Qual julga serem os principais obstáculos para alcançar uma semana de trabalho de quatro – ou três – dias e como os podemos ultrapassar?

O principal obstáculo é o empregador, caso contrário já teria sido feito há muito, uma vez que é o empregador quem estabelece as condições de trabalho mais que ninguém.

O receio de perder o controlo e/ou os lucros é o que move os empregadores. Os trabalhadores aceitariam entusiasticamente uma semana de 4 dias/32 horas sem quaisquer cortes nos ordenados. É a coisa mais certa a fazer, principalmente nas actuais condições de depressão em que se encontra o capitalismo global.

Que responderia a quem argumenta que uma semana laboral mais curta não é um objectivo realista e que as pessoas se deviam concentrar em objectivos mais alcançáveis como o aumento do ordenado mínimo?

O “realismo” é como a beleza: depende exclusivamente da percepção de cada um. O actual crash global era uma expectativa “realista”? A falta de preparação para o Covid-19 foi um posicionamento “realista” por parte de Trump e do regime do Partido republicano? No actual clima político, uma semana de trabalho mais curta com o mesmo ordenado seria uma receita excelente para o tricke-up de uma política económica mais adequada às necessidades da maioria do que as políticas de  trickle-down normalmente aplicadas pelos governos actuais.

Mohamed Elmaazi é jornalista, residente em Londres, director do The Interregnum, colaborador da Sputnik News, de The Canary e do The Grayzone entre outros órgãos de comunicação social independente.

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Tradução: Flávio Gonçalves

Foto: Economic Update

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