A minha família na Revolução Bolchevique

Tropas do Exército de Don Army junto a um tanque Mark V

Há 100 anos, o meu pai com 9 anos de idade contemplou da varanda do terceiro andar do apartamento em que vivia em Novatcherkass, no sul da Rússia, a passagem de um desfile militar sem que ele ou a minha avó percebessem o que se estava a passar. Foi a 28 de Outubro de 1917.

Os homens vinham uns fardados e outros à civil e diziam os vizinhos que iam conquistar a vizinha cidade de Rostov. Eram voluntários do primeiro exército branco que se tinha revoltado sob o comando do general Kornilov contra o governo democrático provisório que depois de derrotado em Petrogrado por forças democráticas comandadas por Kerensky se tinham refugiado na região de Kuban a leste do rio Don que banha as duas cidades vizinhas, Novatcherkass e Rostov.

Ali, muito longe da capital, ninguém sabia algo dos bolcheviques apesar de existirem agrupamentos espalhados por toda a Rússia com especial incidência na Crimeia entre os marinheiros da base de Sebastopol.

Iam todos armados com a famosa espingarda russa Mozin-Nagat 1891 mais conhecida pela 3-Lineyaya Vintovka devido às estrias que tinha no interior do cano para dar uma rotação à bala. No fundo era o equivalente da Kalashnikov de hoje.

Os bolcheviques a 26 de Outubro ainda lutavam para conquistar as 1.500 salas e salões do Palácio de Inverno com Vladimir Ilitch já sentado à secretária do deposto Alexander Kerensky, quando não estava no Instituto Smolny, o quartel-general do soviete partidário de Petrogrado de onde partiu a organização da revolução.

A tropa não politizada tinha fugido, incluindo o célebre batalhão feminino que se prontificara a defender a democracia. Enquanto se disparava no interior do Palácio, na cidade decorria a vida normal e poucas pessoas sabiam do se passava. As forças ao serviço de Lev Davidovitch tinham-se esquecido de cortar as linhas telefónicas, pelo que as autoridades provinciais sabiam do que se estava a passar.

A luta dos voluntários brancos recrutados por Serge Obolenski foi dura e só a 2 de Dezembro conquistaram Rostov, combatendo de rua em rua. Havia muita dificuldade em distinguir os brancos dos vermelhos porque utilizavam o mesmo uniforme do exército russo e alguns andavam à civil. A dada altura, os vermelhos passaram a usar uma faixa que dizia “morte aos burzhúi (burgueses)”.

Durante uns dois anos, Novatcherkass esteve uns tempos largos na mão dos brancos e depois mudava de mão quase todas as semanas e o meu pai que tinha um relógio cronómetro contava os segundos entre o primeiro tiro de um canhão e a explosão da bala, calculando assim a distância pela velocidade do som como lhe tinha ensinado o meu avô.

A região chegou a ser ocupada pelas tropas alemãs já depois da assinatura do tratado de Paz de Brest-Litovsk e dois oficiais alemães chegaram a instalar-se em casa do meu pai, enquanto do meu avô ninguém sabia de nada. Os oficiais alemães aconselharam a minha família a sair da Rússia com as forças alemãs que não se metiam na guerra entre brancos e vermelhos quando de repente o meu avô aparece em meio fardado de aspirante russo e de soldado austríaco, pois para fugir da Sibéria apoderou-se de uns papéis de um anarquista falecido e quando pediu um novo passaporte russo foi logo incorporado no exército russo.

A 2 de Dezembro de 1917, Liev Davidovitsch Bronstein, formou oficialmente o exército vermelho e, curiosamente, quando o meu avô tomou conhecimento do nome do chefe militar da Revolução ficou descansado. É que era amigo de David Bronstein, pai de Liev, o proprietário de uma fábrica de moagem de cereais no sul da Ucrânia ali muito perto de Novatcherkass e o meu avô como engenheiro mecânico e representante dum fabricante alemão das modernas máquinas de moagem e ia de vez em quando à fábrica do senhor Bronstein com ajudantes reparar qualquer avaria.

O irmão mais novo da minha avó frequentava uma Escola de Engenheiros em Moscovo e quando tinha o curso quase acabado em meados de 1916 foi mobilizado para a aviação russa, a primeiro que construiu e utilizou bombardeiros de quatro motores, dado terem um génio da engenharia aeronáutica, o Sikorsky, que durante a revolução fugiu para os EUA onde inventou o helicóptero e fundou a fábrica que ainda tem o nome dele. Aí o meu tio-avô aprendeu a pilotar e a reparar aviões, mas a guerra acabou quando ia começar a entrar em combate.

Depois da formação do exército vermelho, contava a minha avó, o irmão Félix foi mobilizado pelo exército vermelho como “voenspets” (perito militar) dado que os bolcheviques não tinham oficiais ou especialistas do seu lado porque todos emigraram para a Alemanha, França e EUA. Tal como o Félix, muitos especialistas burgueses eram de esquerda, mas os bolcheviques assustavam-nos e a dada altura toda a classe média russa quis ir para a América, tida como o paraíso de todas as oportunidades, seguindo as pisadas da nobreza que ficou mais em França a guiar táxis e servir em restaurantes de luxo porque não sabiam fazer quase nada.

A estadia desse meu tio-avô na força aérea vermelha não durou muito. Ele era muito conhecedor e intelectual, só que sofria um pouco de miopia e uma dia num voo de observação na Ucrânia viu qualquer coisa que lhe pareceu serem tropas inimigas e regressou à base para informar os comandantes. Uma companhia vermelha foi imediatamente ao encontro dessa tropa e viu apenas uma quantidade de animais de pasto, talvez bois, a pastarem pacificamente na estepe ucraniana. Expulsaram-no da aviação e queriam-no fuzilar, mas a miopia salvou-o e foi combater para a artilharia, avançando até Odessa e daí passou com as forças vermelhas para a a região cossaca onde tinha sido instaurada uma República Democrática Cossaca que foi rapidamente derrotada, mas o exército branco do general Anton Denikin obrigou os vermelhos a recuarem quase até Moscovo.

Antes disso, quando da retirada das tropas alemãs, já em 1918, o meu tio-avô contactou os alemães e viu que estavam dispostos a vender as suas armas, o meu tio Félix negociou com eles e passou a comprar para o exército vermelho uma Mauser por um marco e uma peça de artilharia com um lote de munições por 150 marcos. Tudo mais uns tantos sacos de farinhas, carnes e outros alimentos porque havia muita falta de comida.

A família em Novatcherkass foi-se aguentando porque a irmã mais velha do meu pai namorava um russo que era apicultor com o respetivo pai e arranjava mel que fornecia muitas calorias à família e é muito saudável. Ao contrário dos outros russos, a família do meu pai conseguia manter um ar saudável. Contudo, tinham sido expulsos do apartamento em que viviam 5 pessoas para ser ocupado por um comissário bolchevique mais a sua mulher e dois filhos. O meu pai e família foram viver numa pequena casa térrea de um amigo alemão em que sete pessoas dividiam entre si dois quartos e uma pequena sala com lareira.

A casa estava situada mesmo em frente ao anterior prédio em que habitavam, pelo que o meu pai via os filhos do comissário brincarem com os seus brinquedos e vestirem algumas das suas roupas, já que o comissário só deixou levarem a roupa que vestiam mais qualquer coisa de muito pouco.

Félix terá passado depois à vida civil, mas a minha família nunca mais soube dele. Talvez tenha sido fuzilado pela Tcheka dirigida por Dzerjinski, o chefe da polícia política, que liquidou centenas de milhares de burgueses e oficiais do antigo exército russo ou não. Pelo menos um irmão do meu avô ficou na Rússia e parece que fez carreira como tradutor e funcionário de vários serviços do Estado. Um dos seus filhos ou neto trabalhava no Instituto de Relações Internacionais e não o conheci porque quando frequentei um seminário nesse Instituto, um tal Dellinger estava de férias.

Na altura em que visitei Moscovo, nos tempos de Brejnew, explicaram que a condição para a sobrevivência nos tempos de Iossif Djugashvili era ser fiel ao partido, mas evitar mostrar muita inteligência ou capacidade para subir a algum cargo mais ou menos superior. Como na tropa, não dar nas vistas, já que a renovação dos quadros era sempre feita frente a pelotões de fuzilamento ou em longas estadias “turísticas” na Sibéria.

O meu pai, o irmão e a irmão mais a minha avó ficaram em Novatcherkass convencidos que a influência de David Bronstein servia de proteção e assim aconteceu até 1925, apesar de que o meu avô tinha nascido num cidade ex-alemã que ficou integrada na República Tcheco-Eslovaca.

Sabe-se que exército branco russo foi formado a partir das tropas checas que tinha desertado do exército austríaco e resolveram lutar contra os bolcheviques, mas quando se formou a sua nação, abandonaram a luta para ajudarem o exército vermelho com a promessa de irem para o seu país e em 1925 ou 1926.

Com a instalação de uma embaixada da República Tchecoseslovaca, o meu avô arranjou passaportes checos para toda a família sair da já União Soviética que queria manter boas relações com todos os países com populações eslavas e a conselho de amigos, pois a zanga de Iossif Djugashvili contra Liev Bronstein foi mortal e todos os judeus e amigos de judeus foram expulsos do partido e muitos fuzilados ou obrigados a irem trabalhar para a Sibéria ou nos campos ao longo dos rios Don e Volga.

Foi nesses campos que os nazis os apanharam na II. Guerra Mundial e os mataram, apesarem de serem pessoas cortadas de todas as informações vindas do exterior e que nada tinha a ver com alemães ou outras nacionalidades. Curiosamente, salvaram-se aqueles que Djugashvili tinha deportado para a Sibéria pouco antes da chegada dos nazis que avançaram tão depressa que não permitiram aos órgãos policiais fazerem a deportação de todos.

O meio judeu Hitler estava convencido que o chamado bolchevismo ou comunismo era judaico, apesar das perseguições de Iossif Djugashvili e este julgava que aqueles judeus mais os chamados alemães do Volga e do Don que cultivam as terras desde os tempos da Catarina a Grande iria juntar-se aos alemães para lutarem contra o seu regime.

A família do meu pai pôde assim sair da Rússia com a roupa que vestia e umas pequenas maletas e nem as alianças de casamento puderam levar e foram instalar-se em Dresden até ao dia 13 de Fevereiro de 1945 em que os ingleses queimaram vivos todos os meus familiares menos o meu pai que estava numa frente de batalha na Finlândia e a minha avó que cuidava das crianças de uma aldeia de refúgio numa floresta perto da cidade.

Dieter Dellinger foi membro fundador do jornal “A Luta”, tendo posteriormente colaborado nas revistas “A Ideia”, “Sol XXI” e no “Jornal Económico”.

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