A RTP3 e o ocaso do Acordo Europeu

É absolutamente inacreditável — mesmo para quem já desceu a avenida do desencanto inteira, até ao fim. A RTP3, o serviço público de televisão, esteve três quartos de hora num direto sobre a aterragem de um treinador de futebol, SUPRIMINDO DE CAMINHO o noticiário das 12:00. Isto num dia histórico para a União Europeia e Portugal, além de repleto de outras notícias de interesse público inegável — ao contrário da aterragem de um profissional de futebol de regresso ao seu país.

O acordo histórico dos 27, que é crucial para Portugal, chegou ao noticiário às 12:26 com uma pivô tão escandalizada como eu, que fez o melhor que pôde. Como se não estivéssemos já no reino da total falta de pudor e sensibilidade — já nem falo de profissionalismo, que esse há muito se evaporou de quem tem a responsabilidade por esta situação —, não eram volvidos 20 apressados minutos a aviar as notícias do dia e a RTP 3 regressa ao futebol para mais um obscuro bloco de interesse nulo.

Isto passou todas as marcas. É demência.

Eu imagino que isto não é do agrado de António José Teixeira, o diretor de informação. O que não consigo imaginar é porque se sujeita ele a este tipo de demência, a esta total subjugação aos interesses da indústria do futebol.

Gostava de tagar todas as pessoas que conheço na RTP para lhes pedir a opinião acerca deste — mais este — enorme tiro no pé do serviço público. Provavelmente seria injusto: a maioria terá razões para ficar incomodada com uma interpelação pública razoável à qual não poderá responder francamente.

É demente. A informação do serviço público está para lá do recuperável. Tenho imensa pena. Tenho imensa indignação.

Paulo Querido é ex-jornalista, responsável pela maior comunidade de Blogs em Portugal e autor das obras “Amizades virtuais, Paixões reais – A Sedução Pela Escrita“, “Blogs” e “Homo Conexus”.

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