O “mistério” das Duas Lápides do Século XVII na Igreja São João de Deus

Numa das cinco capelas do Centro Funerário São João de Deus da Igreja São João de Deus, construída em 1953 no local onde funcionava antes uma antiga vacaria encontramos duas lápides funerárias de meados do Século XVII. A presença é inusitada porque embora neste local da freguesia do Areeiro, por volta desta época devessem existir algumas quintas e explorações agrícolas (algumas das quais sobreviveram em nomes de ruas) não há outros indícios que testemunhem a presença humana neste local no século XVII. De facto, em toda a freguesia o testemunho mais antigo é o monumento das “Pazes de Alvalade” (com primeira referência de 1760, alegadamente, mas improvavelmente, de 1323) ao qual se segue um portão de uma antiga quinta no Campo Pequeno com a data “1865”). Estas duas lápides, respectivamente de 1645 e 1650 poderão ser assim os dois mais antigos testemunhos históricos no Areeiro.

A primeira questão está em saber o que fazem duas lápides de meados do século XVII numa Igreja de meados do século XX. Com efeito, e embora até meados do século XX fosse comum fazer enterramentos dentro das Igrejas ou nos seus adros, de acordo com a classe social do tumulado, sendo os mais abastados encontrados junto ao altar-mor e os mais pobres junto à entrada ou no átrio. Com o liberalismo, por iniciativa de Fonseca de Magalhães em 1835, e por razões de saúde pública, estes enterramentos dentro das Igrejas e dos seus Adros foram proibidos, obrigando à construção de cemitérios públicos em todo o País, entre os quais se encontra, por exemplo, o não muito distante cemitério do Alto de São João. Assim sendo, sabemos logo que é impossível que estas duas lápides estejam, de facto, acompanhadas dos tumulados e que não são da época desta igreja construída em 1953.

As duas placas, em epigrafia típica do século XVII e com alguns pormenores epigráficos comuns, mas curiosos, são as seguintes:

“Sepvultvra de Avgostinho franco de mesqvita faleceo a 19 de ianeiro de 1645”
e
“Sepvulvra de Donna Anna da cvnha faleceo a 18 de setembro de 1650”

Observam-se aqui alguns detalhes como o uso de V como U e V, algo que mesmo sem as datas permitira datar as lápides e que testemunham aquele foi, provavelmente, um dos últimos usos deste caracter U/V nesta função dupla. De recordar que, em Roma, “NVMERVS” tinha o U latino lido como vogal e o V de “VITA” lido como uma semivogal mas foi precisamente na Península Ibérica, perto do termo da presença romana, que começou a divergência que haveria de dar no “VIDA” (V) do Português e no castelhano “BÍDA” (B/V). O uso misto U/V começou a separar-se no século XV para resolver o problema da grafia de palavras como “Vultur” (abutre) e “vulpes” (raposa) que eram escritas como “VVLTVR” e ‘VVLPES’ e foi assim que nasceu o V e o U. Esta separação, contudo, demorou muito tempo a ser aceite e só no fim do século XVII é que a diferença gráfica entre U e V entrou na moda sendo muito rara por volta de 1690.

Igualmente curioso é o uso de um “cunhas” (ou nos casos em que havia mais espaço de duas) para preencher espaço vazio e distribuir mais irmanamente o texto pelo espaço disponível na lápide num “horror ao vazio” típico deste tipo de inscrições. A forma da cunha é também compreensível (desde a escrita suméria) porque é aquela que é mais fácil e rapidamente é feita com o mesmo cinzel que se usa para grafar os restantes caracteres. Este separador é comum nas inscrições em pedra embora hoje tenha caído em desuso. Na época romana usavam-se por vezes folhas de hera para esta função e nas estelas pré-romanas do Sul de Portugal (em Escrita Cónia) nenhum separador era usado (o que, aliás, dificulta hoje a sua tradução).

Nestas duas lápides observa-se ainda a aglutinação de caracteres em que “DE”, “DO”, “NH”, “NN” (num efeito gráfico muito elegante) e “TE” surgem fundidos para poupar espaço na lápide sem redução do corpo de letra.

A fraseologia usada (com fórmulas idênticas em ambas as lápides e, exactamente, os mesmos tipos de letras) indica que foi feita pelo mesmo pedreiro e, provavelmente, para a mesma família (apesar de os nomes dos tumulados não indicarem essa relação).

Quanto ao conteúdo e identidade dos tumulados propriamente dito, decidi não fazer qualquer investigação além da morfológica (que me recordava ainda das minhas aulas de epigrafia) e coloquei à prova a “Internet” e usando o “crowdsourcing cidadão” coloquei a foto das duas lápides no facebook e pedi ajuda aos cibernautas.

Eis o que assim foi possível descortinar sobre o “mistério” da presença destas duas lápides de meados do Século XVII na Igreja moderna da Praça de Londres (Areeiro):

1. No Arquivo Nacional da Torre do Tombo existe uma referência ao primeiro tumulado: “TESTAMENTO DE AGOSTINHO FRANCO DE MESQUITA, QUE NOMEIA POR TESTAMENTEIRO, SUA MULHER D. ANA DA CUNHA, AMBOS O FIZERAM À CAPELA-MOR DO SOCORRO PARA A QUAL APLICARAM UM JURO, DE QUE SÃO ADMINISTRADORES OS IRMÃOS DA MESA DA MISERICÓRDIA”. Ou seja, em primeiro lugar, ficamos a saber que as duas inscrições são tão semelhantes e estão, aqui, juntas porque são marido e mulher e já deveriam estar lado a lado no local original de colocação das lápides. Esta referência explica também porque estavam as duas lápides numa igreja já que se tratavam das sepulturas dos mecenas da Capela Mor ou Capela de Nossa Senhora da Saúde, também denominada “Capela de São Sebastião” ou “Capela de São Sebastião da Mouraria” da antiga igreja do Socorro.

2. Segundo outro documento no Arquivo o tumulado “Agostinho Franco de Mesquita” foi o proprietário e, provavelmente, habitante de algumas casas atrás da Igreja de São Domingos. Como a Igreja do Socorro não se encontrava muito longo é muito provável que fosse esta a igreja que frequentava juntamente com a sua família.

3. Os nossos “investigadores sociais” descobriram ainda que as duas lápides vieram da antiga Igreja de Nossa Senhora do Socorro (construída em 1596 e demolida em 1949), cujo recheio (incluindo estas lápides) veio para a Igreja São João de Deus, construída com o produto da venda do terreno à CML para fazer o Martim Moniz nos anos 1940 razão pela qual o nome original da estação de metropolitano do Martim Moniz era “Socorro”.

Alguns (os maiores e mais informativos) dos investigadores que ajudaram (muito) a esclarecer este “mistério”:

António Gonçalves da Silva
https://www.facebook.com/Antonio.Goncalves.da.Silva/

Carlos Boavida
https://www.facebook.com/carlos.boavida.18/

Jorge Santos Silva
https://www.facebook.com/jorge.santossilva/

Pedro Gaurim Fernandes
https://www.facebook.com/pedro.gaurimfernandes/

Pedro Ribeiro
https://www.facebook.com/pedro.ribeiro.374/

Rui Costa
https://www.facebook.com/profile.php?id=100016745109776

Obrigado e
Bem Hajam por terem participado nesta “experiência social” que demonstrou, mais uma vez, a sabedoria que existe nas redes sociais!

Algumas fontes:
https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4664004&fbclid=IwAR1QuVtW-Y2qB5eOKtMfDXrDpbHMHcOwm_lnWjGrvE5FgOfTfGTsJpa2-6M
https://books.google.pt/books?id=nxBQAAAAcAAJ&pg=PA434&lpg=PA434&dq=agostinho%20franco%20de%20mesquita&source=bl&ots=9nItsqR6X3&sig=ACfU3U1K1KGzIPl0veN5wkDNHRCZWr_bXQ&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiQptukuNDuAhVOaRUIHWN-DZ0Q6AEwCXoECAYQAg&fbclid=IwAR19oUDmfA9HXFd0r05_8P_VEJEw_2zKlnxD9CpKiKEOM8bjm3KCTQeW0u4#v=onepage&q=agostinho%20franco%20de%20mesquita&f=false
https://informacoeseservicos.lisboa.pt/contactos/diretorio-da-cidade/igreja-de-sao-joao-de-deus?fbclid=IwAR3HDJA3oAH8rJV5mrCjlcWOvNvpjs4ZvAIbbqQFCfy5CVQ5BSM3yUkPezQ
https://www.facebook.com/NomesCientificos/posts/1086067201543791/

Rui Martins (compilador mas não o “descobridor” destas informações: para isso: remoto para a lista acima)