A Anomalia Cultural do Areeiro (Lisboa)


Vivo numa freguesia de Lisboa (Areeiro) onde não existe um museu, nem um cinema nem sequer uma biblioteca pública. Em compensação, não faltam eventos mais ou menos ruidosos na Alameda Afonso Henriques, excursões a Fátima ou às ilhas ou outras actividades do mesmo tipo.

Trata-se – sem margem para dúvidas – de uma decisão política com décadas e que não pode nem deve ser apenas atribuída à actual gestão autárquica mas que se enquadra num panorama mais amplo, anterior à agregação de freguesias e onde o pelouro da Cultura da CML também não está isento de responsabilidades.

Na verdade: esta anomalia é tanto mais notória quando se compara o Areeiro com as freguesias vizinhas onde existem todos estes equipamentos (museus, bibliotecas e cinemas): Avenidas Novas, Alvalade e Arroios. Este deserto cultural de uma das mais ricas freguesias de Lisboa da capital de um país da União Europeia e naquela que é – dizem – a cidade culturalmente mais dinâmica do país é chocante e termos chegado a este ponto deveria merecer reflexão por parte de todos nós: consumidores de bens culturais, produtores de bens culturais (músicos, historiadores, escritores, actores, etc).

Esta reflexão deve passar pela forma como algumas juntas (e, certamente, esta Junta do Areeiro) exerce o seu mandato: muito virado para a intervenção casuística ou reparativa e para festas e excursões e pouco para intervenções de larga escala e espectro: numa filosofia de gestão que explica (demasiado bem) os proverbiais excedentes orçamentais que se acumulam ano após ano e que hoje em dia devem representar mais de 1.4 milhões de euros estacionados em várias contas bancárias (o valor é incerto porque esta autarquia nunca respondeu à pergunta simples: “quanto dinheiro tem parado nos bancos”). Na verdade, há espaço orçamental e ampla necessidade para reforçar a oferta cultural no Areeiro: Junta de Freguesia (o órgão electivo – supostamente – mais próximo dos cidadãos) tem o dever de trabalhar, quer de forma directa, quer pela via da pressão junto do Governo central, parlamento e câmara municipal para suprir este flagrante deserto cultural mas a própria Câmara Municipal de Lisboa não está, também, isenta de responsabilidades tendo capacidade, autonomia e orçamento para, conjuntamente com a Junta de Freguesia trabalharem no sentido da resolução desta estranha anomalia que se observa no Areeiro.

Rui Martins