Cenouras no Manuscrito Voynich? Uma possível chave de Rosetta para a tradução deste misterioso manuscrito?

É no Folio 100v do Manuscrito Voynich (MV) que encontramos aquela que é, provavelmente, a melhor representação da cenoura ou “daucus carota” com etimologia do latim tardio carōta e, mais remotamente, da raiz Indo-Europeia raiz ker- (corno ou cabeça) de todo este livro. Embora existam outras representações de cenouras ou de plantas, reais ou imaginárias, idênticas esta é a mais nítida e é também aquela que está acompanhada, por uma aparente legenda, que muito provavelmente significa “cenoura” na língua desconhecida do manuscrito.

E é, precisamente, sobre esta palavra (“ykchdy” no alfabeto EVA ou “European Voynich Alphabet” (uma criação de René Zandbergen e Gabriel Landini em 1998) que vai incidir a nossa primeira abordagem ao MV. Desde logo, ressalta como notável que o primeiro caracter seja igual ao último: “y”. É certo que existem outras aparentes representações de cenouras com legendas semelhantes (mas não idênticas) mas focando-nos nesta que, de facto, é a mais semelhante a uma cenoura e sabendo que estamos perante uma língua usada na Europa no século XV, mas de raiz não indo-europeia (segundo o padrão de entropia do MV) ficamos com apenas duas línguas possíveis: o Hebraico e o Basco.

No basco moderno “cenoura” corresponde a “azenarioa”, no hebraico: ge-zer (גזר). Como “ge-zer” começa e termina com caracteres diferentes está excluído (assumindo que o MV usa uma cifra simples de substituição) resta assim o basco “azenarioa”. O problema é que esta palavra, embora comece e termine de facto com o mesmo caracter “y” (em EVA) na verdade e apesar de basca tem origem indo-europeia… Não aparenta porque diverge as palavras “carrot” (inglês), “carotte” (françês), “carota” (italiano”) e “karotte” (alemão) mas provêm da expressão grega “stafulinos agrios” ou “cenoura selvagem” daqui surgiu, por compressão, o árabe arcaico “isfanaríyya” (hoje em dia no árabe moderno é mais usado “gazar” que provém do persa embora na Líbia ainda se use a derivação “sfənnāriyya”). De sublinhar que o árabe e o hebraico usam a mesma raiz para esta palavra. Foi daqui que veio o português “cenoura”, o castelhano “zanahoria” e, infelizmente (neste contexto), o basco “azenarioa”. Ironicamente, hoje em dia os gregos usa o termo de origem latina “karota” não o seu próprio “stafulinos”. Note-se, contudo, que “stafulinos” encaixa também no padrão “primeira letra=última letra” desta legenda. Isto significará que “cenoura” em Voynich está escrito em grego ou numa língua de raíz indo-europeia? Os “stafulinos” advém da compressão entre a raíz στᾰφῠλή (staphulḗ, “uva”) +‎ -ῖνος (-înos). Será uma palavra grega, portanto, aquela que se oculta sob “ykchdy”? Pouco provável uma vez que não parecemos estar perante texto escrito numa língua indo-europeia.

Contudo existe um fenómeno já observado há muito no MV: Conhecidas como “palavras-árvore” ou “grove words” estas palavras começam sempre com um glifo que evoca uma forca. Surgem frequentemente no começo de parágrafos ou de páginas e o estudioso John Grove já tinha observado que se as removermos a palavra continua válida porque recorre noutros segmentos do manuscrito. Por exemplo, a palavra “kodaiin” contém a “odaiim” e a “lchey” a “chey”. Podemos estar assim perante elementos que são, na prática “estática significante” introduzida no texto com o objectivo de o obscurecer e de dificultar a sua interpretação.

É claro que isto se baseia na tese de que a língua Voynich não é indo-europeia sendo que este requisito resulta da aplicação da lei da entropia mas no seu “Analyzing Voynich Manuscript” Manish Rajkarnikar em 2004 conclui que a propriedade da língua do MV é semelhante à de uma língua humana e diferente de um conjunto aleatório de caracteres. Mas Rajkarnikar também acrescenta que poderia ser uma algaraviada de caracteres seguindo padrões de repetição para simular ser uma lingua real. Ou seja, o MV seria uma falsificação moderna… René Zandbergen, refere que esta taxa de entropia que leva à conclusão de que a língua Voynich não é europeia pode ser o resultado de um processo de cifra complexo que modificou as propriedades de uma língua europeia, talvez introduzindo caracteres sem significado (“estática significante”) num padrão de repetição desconhecido que, assim, a torna dissemelhante a estas línguas sem que o texto original deixe de ser de uma língua indo-europeia. Isto significa que dos “y” (EVA) inicial e final pode ser, afinal, o último “y” que interessa.

Quanto à quantidade de ocorrências: “ykchdy” (cenoura?) surge dez vezes no VM e uma delas duplicada “ykchdyykchdy” (cenouracenoura?) no f34v (herbal), no f41e também herbal, no f46v idem, no f53r, idem, no f66r (que parece uma espécie de índice numa página decorada com uma planta), no f68r como a legenda de uma estrela e, por fim, no f104r, na quarta palavra da última estrela branca com haste de planta. A palavra “ykchdy” é assim associada a uma planta semelhante (ou à própria) cenoura e a uma estrela visível do firmamento. Ou seja, a palavra aparece apenas em secções herbais ou no nome de uma estrela. A probabilidade disto acontecer por mero acaso é baixa: Na secção herbal existem 8783 palavras num total de 34767 no MV e todas as vezes que “ykchdy” ocorre é entre estas 8783 palavras por pura coincidência? A titulo de curiosidade e admitindo a tese de que existem duas “línguas” Voynich (Voynich A e B como admitem alguns) esta palavra ocorre em ambas.

Quanto à estrela com a legenda “ykchdy”: Não existe nenhuma estrela que fosse designada na Idade Média ou no Renascimento como “cenoura” mas a constelação de Virgo foi ao longo da História representada como uma mulher (recordemo-nos que as figuras femininas são muito frequentes no manuscrito) e que os gregos a designavam como Persephone e que a sua evolução no firmamento sinalizava aos agricultores como o momento ideal para realizarem as suas plantações ou colheitas e que é durante os “meses de Persephone” que, ainda hoje, se recomendam plantar cenouras (assim como espinafres) e que a cenoura já foi associada a esta divindade fazendo parte dos vegetais que eram colocados em altares em honra à Deusa Persephone. É uma ligação ténue, mas existe e pode estar na razão desta associação.

No folio 99r encontramos outra cenoura, esta de cor branca (uma cherovia?), com a legenda “okysalo”, diferente, portanto de “ykchdy” (cenoura laranja). No mesmo folio aparece “otalam” que pode ser também uma cenoura laranja mas numa forma menos convencional e, provavelmente, indutora em erro nesta associação. No folio 101v aparece algo que se assemelha a uma cenoura laranja e que apresenta a legenda “otaldy”. Todas estas palavras parecem nitidamente diferentes pelo que as espécies vegetais aqui representadas, ainda que idênticas, não deverão ser as mesmas.

Pelo que acima se escreve parece relativamente “seguro” (no VM a palavra deve sempre ser usada entre aspas) que “ykchdy” signifique cenoura (Daucus carota). Resta agora responder à importante pergunta: e que língua é esta? Esta concentração de consoantes reforça o argumento de que estamos perante uma cifra e podemos usar esta associação imagem-palavra “cenoura” para a tentar identificar: manifestamente alguma destas consoantes representa uma vogal ou uma sílaba ou, inversamente/paralelamente a vogal “y” (“ii”) pode representar uma consoante ou sílaba.

Até agora foram propostas como línguas possíveis do Voynich (assumindo que o A e o B são dois “dialectos” de uma só língua):
inglês, latim, latim abreviado, vietnamita, cantonês, dialecto norte-germânico, nahuatlt (asteca), uma língua sintética, basco, hebraico-piemontês, hebraico (codificado com alfagramas), farsi, grego, ucraniano (escrito sem vogais), turco antigo, proto-romance.
Ora em cada uma destas línguas “cenoura” (ykchdy) escreve-se
inglês: carrot
latim: carota
latim abreviado: (desconhecido)
vietnamita: cu cà rot (que parece de origem europeia)
cantonês: Luóbo
dialecto norte-germânico (desconhecido)
nahuatl: Caxtīllān camohtli
língua sintética (desconhecida)
basco: azenarioa (como já vimos mais acima)
hebraico-piemontês: (desconhecida mas provávelmente semelhante a גזר)
hebraico (codificado com alfagramas): desconhecido
farsi: هویج
ucraniano: morkva ou mrkv
turco: havuç

Aplicando as cifras que se sabe que eram usadas no século XV a esta palavra não encontramos nenhuma correspondência semelhante ou idêntica a nenhuma destas palavras. Os vários criptografistas que se debruçaram sobre o MV parecem concordar que:
1. existe uma cifra (ao contrário do que pensa Gerard Cheshire com a sua tese do proto-romance não cifrado)
2. que a cifra é mais forte que uma simples (monoalfabética) cifra de substituição e matematicamente menos forte que uma cifra polialfabética convencional.

Com efeito, como a datação por Carbono 14 aponta a 1ª metade do século XV como a data de redacção do MV e a esta época já os árabes Al Kindi (801–873), Al-Qalqashandi (1355–1418) e Ibn al-Durayhim (1312–1359), tinham publicado a teoria de uma cifra polialfabética (e que uma uma letra simples é substituída por mais do que uma). Na Europa a famosa cifra Alberti surge em 1467 com o seu uso engenhoso de alfabetos mistos e rodando entre eles através da presença de um caracter especial (uma maiúscula ou um número). O seu disco de cifra tem hoje em dia várias versões online (p.ex. https://www.dcode.fr/alberti-cipher) e aplicando (com um método de força bruta) a cifra à nossa palavra ykchdy embora não tenhamos nenhum resultado da lista acima encontramos duas palavras plausíveis do ponto de vista fonético:
9,1,10 CISOZC
16,5,9 ZALEPZ
8,1,10 DLTP1D
Isto significará que estamos perante uma língua artificial? (uma vez que, em nenhuma língua conhecida, encontrei correspondências para “cenoura).

Em 1518, a cifra de Johannes Trithemius é publicada postumamente: uma cifra polialfabética progressiva que muda os alfabetos a ciclos aleatórios. Aplicando-a a ykchdy encontramos as palavras foneticamente plausíveis:
↘+10 IVOURN (um nome pessoal em uso no mundo anglosaxónico)
↗+5 DOFJEY
↗+15 NYPTOI
↘+23 VIBHEA
↘+16 OBUAXT
↘+19 REXDAW
↗+11 JULPKE
↗+21 TEVZUO
que, também, não parecem ter correspondência directa em nenhuma das línguas hipótese para o MV.

É claro que nas cifras da época já se usavam “nulos” (elementos sem valor e adiconados ao texto para induzir em erro o leitor) e isso mesmo sucede em várias das cifras do Vaticano reunidas, em 1379, por Gabriele de Lavinde of Parma. Entre as técnicas aqui econtradas também se encontram nomencladores: símbolos que codificam uma palavra completa, ao lado de outros que só codificam letras isoladas. Este fenómeno pode explicar porque não se conseguem encontrar correspondências directas nestas palavras.

No que respeita ao uso como “medicamento” da cenoura: a associação entre a cenoura e a cura de doenças e, sobretudo, de doenças femininas (dado que este seria o objectivo último dos textos do manuscrito) advém da associação da transferência da doença para a água que sai da tubagem das banheiras desenhadas no manuscrito transportada pela água impregnada do medicamento vegetal (na Antiguidade acreditava-se que a doença podia ser transferida para um objecto ou vegetal) sendo que, se acreditava também que a época da plantação e colheita (daí as imagens astrológicas) era essencial para maximizar esse efeito.

Na Idade Média e Renascimento as cenouras eram usadas para tratar a ictíricia (ver se há mulheres com esse aspecto no MV). A associação das cenouras à visão, contudo, parece ser bem mais tardia que a época do manuscrito (meados do século XVIII). E este mito (grandemente exagerado na Segunda Grande Guerra) tem pouco fundamento. Já a associação do caroteno (um oxidante e percursor da vitamina A) que é o responsável pelo laranja da cenoura tem propriedades anticancerígenas e parece proteger de alguma forma contra doenças do estômago.

Na Idade Média e no Renascimento as cenouras eram também associadas à atividade sexual e à concepção: uma associação que pode vir da sua forma fálica e da associação cósmica (de recordar a palavra “cenoura” associada a uma estrela no MV). Até muito recentemente, nas ilhas Hebridas, jovens mulheres davam cenouras selvagens aos seus parceiros em festivais de dança na Primavera que eles iam mastigando durante o festival. Uma tradição idêntica existia, na mesma estação, entre os gregos e, mais tarde, o botânico Hieronymus Bock (1498–1554) escreveria num dos seus tratados que a “cenoura selvagem dá fertilidade, mas também ajuda a quem tem dificuldades em urinas assim como na impotência no casamento” confirmando essa associação deste vegetal à sexualidade que a associação do coelho à fertilidade e deste, ao consumo de cenouras, ainda hoje mantem.

Também as sementes de cenouras estavam associadas à sexualidade: os gregos usavam-nas depois de desfeitas num po muito fino para fazer uma bebida e um supositório para estimular a concepção e a menstrução. E o botânico Andrea Mattioli (1501–1577) confirmava que as suas sementes desencadeava “desejos pouco castos” mas que podiam ter efeitos abortivos em mulheres grávidas embora reduzissem a flatulência e aumentassem a quantidade de leite produzido pelas jovens mães.

Rui Martins